O absurdo
por Larissa Prado
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As três portas
 
 I.
 
Rebeca estava com as mãos amarradas atrás das costas, os olhos cobertos e bem apertados por um lenço com cheiro de suor, a boca estava bem amordaçada com um tecido imundo, tinha um gosto sujo de terra e sangue. O inchaço dos lábios incomodava, e no porta-malas do automóvel do desconhecido ela só sabia rezar mentalmente para que tudo terminasse bem. “Deus, por favor, que ele não me machuque mais. Nada além do soco que levei na boca, nada de muito cruel, Deus, provavelmente não aguentarei e o Senhor sabe como sou fraca para violência. Por que, Deus? Por que, logo eu?” esses questionamentos e essas palavras passavam por sua cabeça repetidas vezes, sempre iguais, nunca na mesma ordem. As lágrimas cessavam por alguns instantes, mas logo voltavam a escorrer pelo rosto tenso, elas sempre rolavam quando o carro parava porque Rebecca tinha a certeza que em algum momento ele pararia e viria até o porta-malas, abrira e sua vida dependia desse momento fatídico, ela não sabia como agir em uma situação dessas. Só tinha visto em filmes, filmes de terror os quais a amedrontavam. A sensação de pânico agora era real, sabia que não era só questão de fechar os olhos que tudo ficaria bem.

Ele parou o carro, depois de andar por horas e horas, a noite estava prestes a chegar e ela sentia que seu sofrimento estava apenas começando. Aguçou os ouvidos para prestar atenção nas passadas calmas do seu captor, passadas pesadas de botas que arrastam no asfalto. A privação dos sentidos fazia Rebecca se sentir vulnerável e aumentava seu desespero a um nível angustiante. O porta-malas foi aberto, o captor a puxou pelo braço fazendo-a saltar dali. As pernas trêmulas a fizeram atrapalhar-se e quase encostar os joelhos no chão se ele não tivesse fazendo aquela pressão dolorosa em seu braço ao segurá-la com firmeza. Arrastou Rebeca adiante, guiando seus passos, sem nenhuma palavra, ele mal parecia respirar. A garota ouviu o ranger de uma porta depois do som de chaves chacoalhando. Estavam no interior de uma casa, seu olfato era tudo que possuía, ela respirou fundo e o primeiro cheiro que veio assombrá-la foi de desinfetante.

O ar dentro da casa era mais fresco do que o tempo lá fora, um ruído constante denunciava que havia um ventilador de teto ligado. Rebeca sacudiu a cabeça na direção do captor, a presença dele era notória pelo peso das suas botas. Assim que seu rosto virou na direção dele houve outra pressão sobre sua boca, outro soco com algo contundente, ela caiu de imediato com o corpo de lado e o estômago dando voltas, não desmaiou, ficou em um estado de semiconsciência enquanto sentia o sangue escorrendo por seu queixo e os dentes da frente soltando-se da gengiva inchada. A dor era implacável, era insuportável, mas Rebecca descobriria mais tarde que o mais aterrorizante daquilo tudo era que não existia nada insuportável, pois, ela estava ali resistindo a tudo, mesmo que resignada.

Acordou acomodada em várias almofadas macias, o corpo estava jogado tortuosamente, sem cuidado no chão da sala, mas a presença das almofadas era bem-vinda. Rebeca abriu os olhos com dificuldade, não havia mais escuridão, estava sem o lenço que a vendava. Alegrou-se debilmente, mas seus olhos não puderam analisar o lugar com clareza, estava escuro demais ali, nenhuma luz acesa, os objetos dispostos pela sala formavam apenas sombras dando a ela uma sensação de pesadelo indefinível.

O primeiro gesto de Rebeca foi se acomodar nas almofadas, escorando as costas no sofá, tentando sentar-se para depois levantar. (Fugir) As orações desconexas em sua mente foram suplantadas por esse verbo (Fugir), e todo seu corpo parecia querer agir em direção a essa palavra que se afugentava sozinha de sua mente, deixando-a para trás naquele chão. Não conseguia se ajeitar o suficiente para levantar, o corpo doía em todos lugares após os golpes que levara na boca, e quando deu por si, estava desnuda da cintura para baixo, o short de corrida que usava naquela manhã em sua corrida habitual havia desaparecido e junto com ele a roupa íntima. O desespero voltou com força e fugir era seu único objetivo de vida.

A boca doía, latejava, inchada e desconfortável por trás daquela mordaça. Rebeca já havia contorcido o corpo inteiramente e estava com o torso jogado sobre o sofá, o quadril para cima em uma posição embaraçosa e patética, o vento frio batia com violência em suas nádegas bem definidas de esportista, aquilo só lhe dizia que alguma porta da casa estava aberta e a levaria para o lado de fora da casa. Com as mãos atadas em nós cegos atrás das costas tudo se tornava mais difícil, mexer-se necessitava de muita flexibilidade, mesmo para uma esportista ocasional como Rebeca. Em um último acesso de total desespero e aflição ela urrou atrás da mordaça o que fez seus hematomas doerem mais, veio o choro e a fraqueza e ela se deixou ficar ali jogada enquanto as lágrimas drenavam a pouca determinação que ela tinha encontrado.

Ele desceu um lance de escadas, se aproximou dela que chorava descontroladamente, o choro sufocava sua respiração comprometida pela mordaça. Ela virou o rosto na direção do vulto e o que viu fez seu infortúnio alcançar o último nível, o captor usava uma cabeça de cachorro enorme, Rebecca julgou ser uma máscara muito realista, mas o odor pútrido e a forma como as cavidades dos olhos escorriam demonstrava que o horror que ela vivenciava era pior do que poderia suportar. Em um impulso ocasionado pelo pânico súbito, Rebecca patinou nas almofadas da sala e conseguiu correr desajeitadamente sem direção, apenas afastando-se daquela criatura, caiu assim que deu alguns passos desesperado e passou a rastejar pelo linóleo da casa em direção à porta de vidro por onde entrava a brisa da noite.

A garota gritava em urros abafados, sangue explodiu através da mordaça quando ele a puxou pelos calcanhares e a trouxe para seu total domínio. Pela terceira vez ele a apunhalou na boca, e o desmaio foi súbito, a dor foi terrível. Passou algum tempo até que Rebecca recobrou os sentidos turvos, os olhos apertados doíam, todo seu rosto doía mais do que nunca. Ainda jogada sobre o sofá daquela sala ela tentou levantar o rosto, mas a dor foi excruciante, tentou gritar e só um gemido indistinto saiu de sua boca contundida. Rebeca percebeu que não estava mais amordaçada, as mãos estavam livres com os punhos profundamente feridos pela grossa corda. Havia algo estranho em seu rosto, uma dor que não condizia apenas com o soco, era um tipo de dor diferente, algo que ela nunca sentiu anteriormente na vida. Levou as mãos até o rosto, perplexa e desolada, constatou o que tinha lhe ocorrido e desmaiou novamente, dessa vez por puro desconsolo. Os lábios de Rebeca haviam sido costurados com maestria, a dor era latejante e sufocante.

 
II.

Daquele desmaio demorou a voltar, talvez sua própria consciência a tivesse poupando do espetáculo horrível que iria se tornar sua vida no resto daquela noite. De vez em quando Rebecca conseguia recobrar parcialmente a consciência e os sentidos, tudo o que podia captar era a imagem muito próxima da cabeça enorme de um pastor alemão, ora muito perto, ora longe demais como em um pesadelo. Atordoada, sentia cada dor que ele lhe causava pelo corpo, mas não sabia definir o que era ou onde era, a dor alcançou um ponto em que era generalizada, tudo doía, todo seu corpo tremia em latejares excruciantes.

A escuridão e torpor tomou conta do que restou da vaga consciência de Rebecca, lembrava-se dos últimos momentos antes de ser raptada por aquele estranho, o parque vazio, a forma como corria distraída com fones de ouvidos que tocavam suas músicas preferidas da hora da corrida, isso tudo ia e voltava em sua memória como um filme em câmera lenta. Uma luz difusa mantinha brechas dos olhos abertas com grande esforço, Rebeca tentou levantar a mão para cobrir o rosto, queria se livrar daquela luminosidade dolorosa, mas sentiu um puxão e um tilintar de corrente. Olhou na direção do punho dolorido e viu que estava acorrentada, tornozelos e punhos, era impossível se mover e todos músculos do corpo tremiam em convulsões discretas, o frio entrava pelos ossos e a fazia gemer sem querer. Completamente nua, ela tentava não pensar nas dores, voltava a correr pelo parque em sua memória fechando os olhos para a realidade em que se encontrava. Aquilo melhorava um pouco a situação, mas não resolvia por muito tempo, principalmente depois que eles chegavam.

Primeiro o homem que a raptou e sua horripilante máscara de cão abria a porta do porão, ela podia ouvir o ranger dos degraus e aquele som aumentava o frio interno e a tremedeira, Rebeca sentia-se mais fraca. Atrás dele vinham mais dois homens, um deles tinha o rosto coberto por uma espécie de máscara de pano, um saco de linho encardido que deixava os olhos em dois buracos negros ocos, uma máscara branca inexpressiva de olhos negros. O terceiro homem trajava uma cabeça de borracha com um rosto dócil e estúpido de coelho sorridente, de todos eles, o coelho era o mais violento. Desejava a morte, tinha chegado a esse ponto, cada vez que via os passos dos três indivíduos fazerem a escada do porão ranger.

Rebeca perdera a noção de tempo, desde que acordou do desmaio e sentiu os lábios costurados não sabia mais quantos dias haviam passado, se era dia ou noite do lado de fora. Seu único contato era com aqueles homens. Às vezes eles passavam longas horas apenas olhando-a por trás das máscaras, ela não conseguia encará-los, permanecia de cabeça baixa, impossibilitada de gritar ou falar, apenas se mantinha entregue. Não sem notar que as mãos do coelho viviam tremendo como se sofresse algum ataque de nervos, mal de Parkinson, talvez, algo do tipo, ele não parava de tremer um segundo e quando vinha com algum material cortante, Rebeca sabia que enfrentaria momentos de dores lancinantes nas suas trêmulas patas.

 
III.

Eles permaneceram parados por mais tempo daquela vez, apenas olhando-a. Rebeca jamais havia escutado qualquer som vindo deles, nem mesmo um gemido, apenas respirações brandas ou ofegantes quando faziam muito esforço nas longas sessões de torturas, até que um deles emitiu as primeiras palavras. Ela se encolheu assustada com o som da voz, fazia tanto tempo que não ouvia ninguém falando que aquilo soou estranho a seus ouvidos. Rebeca recolheu as mãos e abraçou os joelhos, as correntes pareciam pesar toneladas, ela não se alimentava há muito tempo e isso fazia sentir o corpo como uma pasta que iria se desmanchar a qualquer momento.

- Você precisa escolher com quem quer ir. – disse a voz vinda do estranho sujeito de máscara branca, ele era o menor dos três e parecia ser o líder, se é que havia algum. Os outros permaneciam lado a lado daquela voz.

- Escolher com qual de nós quer ir. – ele repetiu mais alto, sua voz tinha uma gastura estranha que não poderia ser definida se feminina ou masculina, parecia algo forçado, fingido, um grunhido ousando ser voz humana.

Rebeca sacudiu a cabeça negando, o homem com cabeça de coelho lhe deu um tapa tão forte que arrebentou metade dos pontos que atavam seus lábios, o sangue espirrou e ela soltou um gemido doloroso deixando o corpo cair de lado.

- Com quem quer ir, olhe para nós. – a voz insistiu mais uma vez, autoritária e impaciente. Era interessante observar que dos três, apenas aquele estranho de rosto de pano não tinha lhe agredido, sequer tocado em Rebeca, ele apenas assistia.

Ela levantou o rosto com esforço, os lábios inchados e lacerados latejavam ao ritmo do seu coração descontrolado. Pela primeira vez ela viu os três claramente, pela porta do porão aberta réstias de luz forte entravam iluminando o grupo tenebroso de captores.

Aquele que falava com Rebeca se aproximou, ela recuou como pode mas apenas se espremeu mais na parede fria, ele agachou e deixou os olhos encararem os dela. Contendo um grito de assombro ela notou que não haviam olhos dentro dos ocos da máscara, eram dois fundos sem íris, de quê era feito aquele homem sem olhos? Ela sacudiu a cabeça, tremia tanto que os dentes chacoalhavam e a urina escorria livremente por puro medo.

- Com quem quer ir?- ele soou mais dócil, quase paternal. – Escolha um de nós três, precisa escolher agora ou vai morrer, você sabe disso Rebeca, lá dentro sabe que vai morrer agora se não escolher um de nós. – ele afastou mechas de cabelos sebosos do rosto dela.

- Olhe em volta. – ele ordenou forçando-a a olhar segurando seu queixo com força. – Há três portas ali – apontou atrás dos seus comparsas – Qual delas quer atravessar e com qual de nós quer ir?- ele permanecia segurando o rosto dela, não deixando que afastasse os olhos das portas.

Rebeca demorou a ver aquelas portas por baixo da escada do porão, de fato, haviam três portas ali cada uma com emblema que representava as máscaras que usavam: um cão – que mais parecia um lobo; um estranho rosto sem olhos e um coelho dócil.

-Eu não sei – foi tudo que conseguiu dizer antes de explodir num choro desesperado, falar era difícil quando se tinha apenas parte dos lábios descosturada. – Não sei, por favor... – ela encarou a máscara sem olhos.

- Você já escolheu uma vez, faça de novo. – ele disse soltando o rosto dela e voltando a ficar de pé. – ESCOLHA! – o grito daquele estranho ecoou pelo lugar fazendo a cabeça de Rebeca girar, estava zonza quando levantou o dedo e apontou para o homem com máscara de coelho, aquele sorriso amistoso e gracioso na máscara aproximou e a libertou das correntes, parecia triunfante.

Ela não viu mais nada a escuridão voltou a assolar seus sentidos, Rebeca deixou-se levar por ele. Teve um vislumbre quando ouviu o girar de uma maçaneta e atravessaram a porta que ficava ao centro das três portas, ela olhou sobre o ombro daquele que a carregava e viu as duas figuras prostradas encarando-a, seu coração deu um sobressalto e ela estendeu a mão para a estranha figura de rosto sem olhos. A mente gritava “é ele, é com ele que quero ficar, porque levantei o dedo para você?” ela esmurrou o ombro do homem que a levava, todo seu esforço foi em vão. Atravessaram um longo corredor, era quente e sufocante. Ela sentia as pernas doendo como se os ossos estivessem sendo triturados.

A escuridão veio, permaneceu e foi embora. De repente, ela abriu os olhos e mesmo assim ainda estava escuro, nervosa, angustiada. Rebeca estava com as mãos amarradas atrás das costas, os olhos cobertos e bem apertados por um lenço com cheiro de suor, a boca estava bem amordaçada com um tecido imundo, tinha um gosto sujo de terra e sangue...
 
IV.

Os aparelhos monitoravam os batimentos cardíacos e as ondas cerebrais. Dois homens de jalecos brancos conversavam, um deles era mais velho, a longa barba grisalha lhe dava um ar de pura sapiência, o outro era jovem e anotava algo numa prancheta.

- Doutor, por que ela insiste na mesma escolha sempre?-
O mais velho injetava alguma substância translúcida no soro de uma mulher sobre a maca. Seu corpo tinha as pernas retorcidas de uma paralítica, ela era uma senhora.

- É o resultado de uma mente viciada, sempre correndo em círculos, mas vamos ver dessa vez o que ela fará. Aumentei a dosagem e troquei os animais que representam suas escolhas. Algo na figura do Coelho a atraía bastante, talvez o sorriso amigável mesmo que suas atitudes fossem as piores com ela. – o jovem anotava tudo na prancheta, ele levantou os olhos para o doutor, algo bailava neles, uma incerteza.

- Há quantos anos está fazendo isso, doutor? Digo, há quanto tempo ela está aqui? –
O médico avaliou o seu ajudante.

- Isso importa? O tempo é irrelevante para o que estamos fazendo aqui, não importa, em breve, muito em breve...descobriremos algo que mudará tudo, iremos descobrir algo que mudará tudo que sabemos até hoje sobre a mente humana. Não importa o tempo que isso leve ou que ela esteja aqui, é apenas mais uma entre tantos que já estiveram nessa cama. –

O jovem assentiu meio incerto, viu nos olhos do médico aquela fagulha determinada da obstinação algo que beirava a obsessão, ele se calou e quando o senhor virou as coisas deixando-o sozinho para monitorar a paciente, o jovem sentiu que parte daquela obsessão também estava dominando sua mente, era como um vírus, ele aumentou a dosagem da substância no soro dela.

Rebeca não conseguia respirar. O ar dentro da casa era mais fresco do que o tempo lá fora, um ruído constante denunciava que havia um ventilador de teto ligado. Rebeca sacudiu a cabeça na direção do captor, a presença dele era notória pelo peso das suas botas. Assim que seu rosto virou na direção dele houve outra pressão sobre sua boca, outro soco com algo contundente, ela caiu de imediato com o corpo de lado e o estômago dando voltas, não desmaiou, ficou em um estado de semiconsciência enquanto sentia o sangue escorrendo por seu queixo e os dentes da frente soltando-se da gengiva inchada. A dor era implacável, era insuportável, mas Rebeca descobriria mais tarde que o mais aterrorizante daquilo tudo era que não existia nada insuportável, pois, ela estava ali resistindo a tudo, mesmo que resignada.
Larissa Prado
Enviado por Larissa Prado em 25/01/2017
Alterado em 25/01/2017
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