O absurdo
por Larissa Prado
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Velhos galhos dos sonhos
 
"Algumas vezes, acredito que essa vida menos material
é nossa verdadeira vida, e que nossa vã presença
no globo terrestre é em si mesma
um fenômeno secundário ou apenas virtual."
(H.P. Lovecraft in "Além das muralhas do sono")


 
Se não estivesse de olhos abertos poderia dizer que tudo não passava de um pesadelo medonho, mas eu tinha os olhos arregalados e na pele podia sentir o vento frio daquela madrugada distante. Em meus anos de juventude nada que me ocorreu foi mais estranho do que aquelas noites de terrores quando me deitava na cama a fim de adormecer. O corpo cansado e a mente esgotada pelos longos dias de trabalho não encontravam repouso onde deveria. A insônia era consequência do meu esforço em não dormir, porque dormir passou a significar sofrer. 

Ao lado da nossa casa tinha uma antiga árvore dessas que levam milhares de anos para se tornarem tão fortes quanto aparentam. Ela era imensa, seus galhos acariciavam o vidro da minha janela em noites de vento. Quando não passava de uma criança de oito anos, aqueles ruídos eram assombrosos e adquiriram uma estranha fascinação na escuridão, pareciam garras prontas para atravessar a janela e me tomar em suas mãos hediondas.

A cabeça infantil tem um poder imaginativo muito grande. Com o passar dos anos aquela árvore secular se tornara apenas uma árvore qualquer, não me causava mais espanto, por mais que tocasse o vidro com insistência nas noites de chuva eu não lhe dava atenção.

As coisas começaram a ficar estranhas quando eles vieram, os pesadelos. Em toda minha história de vida jamais tive sonhos tão vívidos quanto aqueles, tão reais que quando retornava à minha consciência, deitado na cama, era capaz de sentir as dores que me acometiam no mundo dos sonhos. 

Foi na última noite de verão que me aconteceu a experiência mais estranha e perturbadora de todas. Estava sozinho em casa, tinha acabado de completar meu décimo oitavo aniversário, meus pais tinham me dado uma câmera fotográfica profissional, pois, sabiam da minha habilidade em fotografar e da minha paixão por isso. Estava mexendo na minha câmera, sentado à escrivaninha no canto do quarto, revendo as fotos que havia feito da festa de aniversário que acontecera na noite anterior. Completamente distraído nas últimas lembranças daquela reunião que me proporcionou tanto bem-estar e divertimento, nos últimos tempos eram coisas que não conseguia mais desfrutar devido aos recorrentes ataques de sonambulismo e terrores noturnos. 

Não notei quando cai em um sono profundo, não tem como percebemos o quanto estamos cansados até que o sono vem com tudo e nos leva embora para longe. A minha cabeça pendeu sobre a câmera na mesa e assim dormi não sei por quantas horas.

Escutei os ruídos dos galhos da árvore na vidraça, mas minha memória vagueava incerta não se recordando se eu havia fechado a janela. Ela estava aberta e não a fechei antes de cair no sono, pois, não esperava adormecer sentado na cadeira da escrivaninha. Era inconcebível escutar tais ruídos com a janela aberta. Abri os olhos e a primeira coisa que fiz foi olhar para trás, na direção da vidraça. De fato, estava fechada e os galhos da árvore batiam com delicadeza, como se pedissem para entrar. 

Eu me levantei um pouco atordoado e tonto, como se minhas pernas não soubessem caminhar, andei feito um ébrio na direção da janela e abri, atendendo o pedido da gigante lá fora. Os galhos entraram e chicotearam meu rosto, nervosos. Um vergão doloroso abriu na minha bochecha esquerda e fez deslizar um filete de sangue que senti molhar meu rosto como uma lágrima escarlate, não liguei para isso, afastei os galhos como pude, mas a força deles era sobrenatural. Pareciam garras de um gigante. 

Espichei o torso pela janela e fitei lá fora. A paisagem estava turva, alterada de uma forma bizarra. As casas da vizinhança tinham desaparecido e nos seus lugares havia apenas um imenso deserto negro banhado pela luz da lua cheia. Fiquei um tempo paralisado competindo por um espaço na janela com os galhos que se enveredavam cada vez mais para o interior do quarto. 

— O que é isso?

Perguntei para ninguém em especial. Levei a mão até o rosto ferido e limpei o sangue. Sabia que estava sonhando ao mesmo tempo que tudo aquilo parecia real demais, a própria dor no meu rosto era sinal de que eu estava vivenciando de fato aquilo. 

Tentei sair pela porta do meu quarto, ela demorou a abrir como se estivesse emperrada. Minha memória mais uma vez me fez recordar que não havia trancado antes de dormir, eu não tinha o hábito de dormir com a porta fechada justamente pelos meus últimos terrores noturnos. Era como se sempre existissem olhos me espreitando por trás da porta ao fechá-la à noite. Quando finalmente consegui abrir, ela me levou novamente para meu próprio quarto.

Se aquilo não era um sonho, o que mais poderia ser? O que existiria no nosso inconsciente quando dormimos? O que estava acontecendo e por que comigo? 

Desisti de sair pela porta sabendo que na segunda tentativa eu iria entrar no meu quarto novamente. Em sonhos sempre sabemos o que vai acontecer e a tendência é sempre ser a pior alternativa de todas, a mais angustiante e perturbadora. Fiquei quieto, as mãos cobrindo meus olhos e a respiração ofegante de quem acaba de correr por muitas milhas.

Eu sentia meu coração disparado como um cavalo selvagem e só desejava acordar. Senti uma carícia subindo por minha panturrilha, como um afago de dedos finos, ao abrir os olhos notei que eram os galhos da grande árvore que já haviam tomado todo quarto como se estivessem criando raízes ali. Tentei me libertar do toque, mas eles se enrolaram em minha perna com força descomunal e me levaram dali em um voo rasante pela janela do quarto.

Ali de cima, suspenso por galhos que mais pareciam mãos de gigantes, pude ver toda extensão do estranho deserto que se estendia pelas ruas, criando labirintos medonhos de onde gemidos e lamúrias subiam ao um céu sem cor. Tudo parecia invertido, o chão refletia a Lua que não parecia mais uma Lua e sim a própria Terra vista de um telescópio. Crateras se espalhavam pelo horizonte e senti um enorme desânimo tomar conta do meu corpo pendido na vertical.

Olhei para a árvore, tão grande que suas folhas beijavam o céu, parecia se estender ao infinito. E uma voz em minha mente dizia palavras doces, como era o tom da minha mãe quando era um garoto assustado e perdido aos oito anos, me dizendo que eu estava a salvo ali nos velhos galhos dos sonhos. O senhor dos sonhos em suas diversas formas alcançava os homens através dos seus maiores medos, porque é através do contato com o verdadeiro medo oculto que nos libertamos. 

Ao dizer estas últimas palavras doces os galhos me soltaram em uma queda livre ao encontro do nada. Despenquei de uma altura imensa e quando encontrei o chão escutei um estalo e uma dor que me cegou. Saltei na cadeira da escrivaninha com a mente anuviada e os olhos doloridos.
Olhei de súbito para a janela, estava aberta e não ventava, os galhos da imensa árvore permaneciam estáticos. Eu me levantei e fui ao banheiro lutando contra uma dor insuportável no pescoço que mal me deixava mover direito. Ao encarar meu reflexo no espelho do banheiro o pavor tomou conta de cada parte do meu ser: havia um vergão na bochecha esquerda, algo recente porque eu podia ainda ver o sangue fresco prestes a deslizar. A dor que me atingiu no tornozelo também era inexplicável, levantei a calça e notei marcas fundas de garras em toda extensão da perna. Confuso e aflito voltei ao meu quarto e fui observar a árvore que movia os seus galhos ao sabor da brisa noturna.



 
Larissa Prado
Enviado por Larissa Prado em 22/01/2017
Alterado em 15/07/2019
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