O absurdo
por Larissa Prado
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A Cidade dos sons

 
"Não que os sons fossem pavorosos, pois não eram; mas suas vibrações não sugeriam nada que tivesse semelhança com esse mundo, e a certos intervalos assumiam a marca sinfônica que dificilmente eu podia conceber fosse criada por um músico."
(H.P. Lovecraft in “A música de Erich Zann)
 
I.

A história é sobre uma cidadezinha localizada em algum lugar do mundo que ninguém mais lembra, mesmo no seu apogeu era desconhecida. Lá sempre fazia frio, não importava a época do ano. Nuvens densas cobriam o céu e um ar pestilento pairava intoxicante na atmosfera da cidade. A placa de entrada dizia apenas “Fallvile”, uma cidade no meio do nada.

Naquele lugar a lei que imperava era a do som. Um toque de recolher às 19 horas e não se podia observar mais nenhum movimento em Fallvile, adquiria assim seu aspecto fantasmagórico. Ao amanhecer, dois toques despertavam a cidadezinha para vida, tudo prosseguia dentro de uma normalidade bizarra.
Fallvile
 era mais conhecida como a cidade dos sons, pois, não se vivia um minuto sequer sem música ambiente. Eram sempre as mesmas melodias, instrumentais e persistentes, algo que ficava entre Verdi, Paganini e Tchaikovsky.

As melodias alternavam entre a euforia do dia enquanto o sol estava à pino e a melancolia do início da noite. Altos falantes estavam postos em cada esquina, a música era mais necessária do que a luz elétrica. Os moradores viviam nesta atmosfera musical desde que Fallvile era Fallvile, não podiam recordar de uma existência anterior àquele tipo de vida. A curta memória coletiva faz com que todos se adaptem a uma aparente eternidade confortável, se foi sempre daquela forma não podiam imaginar algo diferente. O que foi feito para durar para sempre não pode nunca ser transformado.

Quem se beneficiava desse tipo de acordo tácito coletivo eram dois tipos de grupos: os religiosos e os ricos. Naquela cidadezinha, os primeiros se mesclavam aos segundos, duas forças combinadas que se tornam inabaláveis, a fé e o poder econômico. Fallvile era dirigida por um seleto grupo religioso e aristocrático que detinha tudo o que fazia a cidade funcionar, inclusive as pessoas.

E o que dizer sobre o espaço que a cidadezinha ocupava? Estava isolada entre uma cadeia montanhosa, famosa por seus turismos radicais em outros tempos e o mar do outro lado que se estendia ao infinito. Fallvile era uma cidade que sobrevivia do turismo em sua forma sombria e peculiar, o céu sempre nublado e as constantes nevascas a deixavam com aquele aspecto esbranquiçado de sonhos. Pessoas de fora chegavam à Fallvile para se isolarem, esconderem ou simplesmente desaparecerem. Outro aspecto intrigante da cidade era este: ela fazia as pessoas desaparecem.
 
  
II.
 
Se havia algo que Julian gostava mais que beber era bater em Karen. O cinto pendia da mão, os músculos dos braços e pescoço retesados o faziam sentir-se exausto dos últimos esforços ao espanca-la. Julian fitava a esposa com um tipo de ódio frio e injustificável. Tudo que ela conseguia pensar ao tentar olhar para ele depois de cada surra era “Ele está hipnotizado”, em parte isso parecia verdade, o ódio era uma espécie de força hipnótica, o problema era que não tinha fundamento.

Daquela vez, porém, Julian havia se excedido ao ponto de fazê-la desmaiar. O corpo de Karen estava no canto do quarto, coberto de hematomas que a faziam parecer um saco de batatas estourado. Ele largou o cinto sobre a cama e permaneceu fitando a mulher, não acreditava que ela havia perdido a consciência, Karen estava cheia de artifícios nos últimos meses e ele considerava aquilo parte de um deles. A impaciência de Julian cresceu até que ele a chamou baixo. O filho dormia no quarto ao lado e ele não queria ter que lidar com um bebê chorando àquela altura.

- Karen? Karen! Levante sua piranha! – a voz sussurrante entrou pela inconsciência dela.

A mulher despertou aos poucos, a voz do marido parecia um ruído distante misturado à música que ecoava do lado de fora, a enlouquecedora melodia das quartas-feiras. O que havia acontecido com o dócil a apaixonado Julian? Ela se perguntava toda vez que se deixava observá-lo nos olhos como naquela volta à consciência. Karen viu os olhos do marido próximos ao seu rosto, o reflexo que viu de si mesma era deplorável, um dos olhos estava tão inchado que desaparecera em um imenso hematoma pulsante. Julian forçou ela a ficar de pé, puxando pelo braço e arrastando-a até o banheiro.

- Tome um banho, tire esse fedor de sangue e suor do corpo. Não demora. –
Ela escutou a porta do banheiro estourar em uma batida nervosa e deixou o corpo rastejar até o chuveiro. Karen levou cerca de 10 minutos até conseguir se movimentar e tomar banho, enquanto isso Julian descia as escadas e tomava um trago de whisky na sala. A melodia que soava do lado de fora o fazia balançar a cabeça de maneira imperceptível. Era quarta-feira e tudo ficaria melhor na quinta-feira, a frágil e destruída mulher no andar superior tentava pensar nisso para continuar respirando.

 
*
A Paróquia erguia-se majestosa na maior praça da cidade. Alguns adornos eram banhados a ouro, a comunidade tinha orgulho daquela construção assim como do seleto grupo de religiosos que guiava a paz espiritual da maioria das pessoas. Passados dois dias da última surra a que Karen foi submetida, estava a mulher sentada ao lado do pastor Jonas, usava óculos escuros para esconder o estrago no rosto e um cachecol mesmo que estivessem no verão e os dias fossem abafados.

- Entenda, Karen, tudo pelo o que passamos não deve ser questionado. Deus não nos envia uma cruz que os ombros não possam carregar. Não encha seu coração de amargura ou ódio, tente apenas compreender os infortúnios que lhe afligem e viver em paz com seu sofrimento.- a voz de Jonas era baixa e comedida, Karen olhava fixamente um crucifixo pendurado no centro da paróquia, único objeto de adoração do ambiente pensando consigo mesma que se fosse o couro do pastor a ser surrado todos dias talvez ele não estivesse tão seguro do que aconselhava. Uma amargura se alastrara por sua mente fazendo seus pensamentos se tornarem turvos e vingativos.

-Sim, pastor, mas é difícil, Julian não era assim antes...-

- Antes do que?- Jonas a interrompeu de forma abrupta.

- De nos mudarmos para cá. Julian começou a se transformar nos dois primeiros meses, principalmente depois de perder o emprego no banco. Ele é outro homem, pastor, odeio o que ele se tornou e não sei como fazê-lo voltar a ser o que era. –

Jonas refletiu por alguns minutos, as costeletas grisalhas estavam eriçadas dando a ele um aspecto cansado e mais envelhecido.

- Talvez devesse falar com o policial Vincent, ele pode conversar com Julian, os dois se davam muito bem pelo o que me lembro.-

Karen não disse nada, seus lábios inchados latejavam e cada palavra se tornara um suplício. O conselho do pastor Jonas não era de todo vão, Vincent e Julian foram amigos sim, por um ano eram inseparáveis e de repente não se falavam mais, ao se verem nas ruas sequer cumprimentavam. Ela deu de ombros e levantou despedindo-se de Jonas, conversar com ele não aliviou como em outros momentos. A última surra deixara em Karen feridas escancaradas que não se limitavam apenas à carne.

Ao sair do mercado Karen se revezava com as sacolas pesadas, o sol estava escondido entre nuvens carregadas que prometiam chuva forte no fim do dia, a melodia que ecoava dos alto falantes das ruas a deixava um tanto desnorteada, parecia alta demais e enjoativa. “Há quanto tempo escuto as mesmas melodias? Faz 3 anos que chegamos aqui e desde então... essas malditas músicas”, submersa no mau humor dos pensamentos ela atravessou as ruas, sua casa ficava a dois quarteirões.
 
III.
 
Vincent tinha nas mãos fichas dos últimos arruaceiros, a noite tinha caído e após o toque de recolher ele permanecia no departamento de polícia avaliando os delitos dos recém-chegados: depredação do patrimônio público, desordem, atentado ao pudor, um dos jovens estavam trajando apenas roupa íntima e sua embriaguez era notável. Do lado de fora o som que ecoava era uma melodia fúnebre e melancólica embalando os sonhos dos habitantes. O policial nascera e crescera em Fallvile as melodias que ecoavam dos alto falantes não lhe incomodavam, ele sequer as ouvia apesar de saber todas de cor, mas sentia-se estranhamente entristecido sempre que as noites chegavam, um véu acinzentado lhe cobria a mente e um desânimo enorme o fazia trabalhar de forma lenta e desleixada, Vincent não sabia por qual motivo aquele declínio se manifestava em seu organismo mas nunca relacionou às músicas tristes que enchiam o ar.

Estava claro que o plantão seria longo, os dois jovens arruaceiros não pareciam querer dormir e faziam todo tipo de brincadeiras e barulhos de suas celas, um deles escalou-a e se dependurou como um macaco, Vincent ignorava aquilo, os pés postos sobre a mesa e os olhos perdidos em um tipo de semblante ausente e embotado. Pela porta entrou uma figura taciturna, alta e esguia trajando paletó e calça pretos, amarrotado, assim como o oficial ele compartilhava um semblante melancólico e um tanto indiferente.

- Policial Vincent... – disse Edmund, um dos melhores professores de Ciências Naturais da universidade local.

- Doutor Edmund, não está em casa? Já soou o toque há mais de duas horas. É perigoso ficar por aí, sabe como é, depois que o sol se põe coisas estranhas acontecem nas ruas e becos.-

- É sobre isso que quero falar com o senhor, policial. – Edmund sentou-se em frente a Vincent, tinha as mãos nervosas segurando uma boina desbotada que já viu dias melhores. – Sobre tais coisas estranhas e sobre tudo que acontece em Fallvile. Estava pesquisando a origem da cidade, a história desde sua fundação, e algo me intrigou bastante, como um dos moradores mais antigos daqui e filho de uma das famílias mais antigas supus que talvez pudesse me ajudar a esclarecer algumas informações...-
-Continue – disse Vincent desinteressado.

- A cidade foi erguida sobre um solo sagrado para povos primitivos, comecei a me intrigar após algumas pesquisas na região florestal que possui uma estranha vegetação incomum. – ele distribui sobre a mesa um punhado de fotos de plantas, para Vincent aquilo não fazia nenhum sentido – Essas plantas, policial, não existem em qualquer livro ou dicionário botânico, elas simplesmente não poderiam existir em nossa flora, entende? As características não são condizentes com nosso clima...

- Doutor Edmun – Vincent o interrompeu com impaciência crescente – não sei onde o senhor quer chegar, mas não sei como posso ser útil em seus estudos. O que quer dizer com isso? –

Edmund recolheu as fotos da mesa e as colocou de volta na pasta, encarou os olhos fatigados do policial e notou que eram olhos meio mortos como os de um sonâmbulo.

- Quero dizer, policial, que as coisas por aqui nunca foram normais. Essas melodias, as coisas que acontecem à noite e que nos obrigam a recolher às 19 horas. Por que continuamos aceitando isso? Já parou para se perguntar quem coloca as músicas todo santo dia o tempo inteiro? De onde elas vem? Sabemos que há altos falantes espalhados por toda cidade e que eles funcionam 24 horas por dia, não importa o que aconteça, mesmo no grande blackout há 10 anos eles continuaram rodando as melodias, como? Não é preciso energia para que funcionem? –

Vincent fez um gesto com a mão ignorando tudo que Edmund dizia.
- Doutor, acho que está criando problema onde não tem, coisas de estudiosos, ficar procurando problemas... Estou cansado, senhor, não consigo sequer acompanhar o que diz, talvez possamos nos falar amanhã durante o dia ou em outra ocasião, agora preciso mesmo tirar um cochilo. –

O professor levantou resignado e não despediu de Vincent, apenas saiu pela porta submerso em um silêncio zangado.
 
IV.
 
Karen sentia as dores pelo corpo latejarem enquanto se mexia na cama à procura do sono que nunca vinha. A cabeça doía há dias desde que Julian a atingira na última surra, depois daquele dia não vieram mais agressões, o marido tinha caído naquela espécie de apatia que intercalava entre os períodos de fúria. Desde que perdera o emprego Julian vivia ou furioso e agressivo ou apático e moribundo, ela já tinha desistido de tentar ajuda-lo, sentia-se cansada a maior parte do tempo, as surras eram exaustivas e se recuperar delas se tornava cada vez mais difícil, o corpo de Karen parecia ceder.

Ela estava fitando o teto na escuridão do quarto e escutava do lado de fora a distante canção que ecoava pelas ruas, algo muito singelo e tranquilizante, como são canções de ninar, mesmo naquele embalo que fazia todos da comunidade dormirem profundamente ela não conseguia pregar os olhos. Julian abriu a porta, passara o dia inteiro sentado no sofá assistindo o mesmo canal na tv, pela fresta ele esgueirou-se até a cama e se jogou pesadamente ao lado da mulher, ela tremeu involuntariamente. Com Julian não sabia quando seria o próximo acesso de fúria, era algo imprevisível. Karen se encolheu, virando as costas para ele, não vê-lo ajudava a fingir que ele não existia, mas logo vieram os roncos do sono dele e ela sentiu lágrimas quentes molharem o travesseiro.

O bebê despertou em choro estridente quando Karen estava quase conseguindo dormir, o relógio marcava 5:30, desesperada para que Julian não acordasse ela atravessou o corredor da casa até o quarto do filho com uma pressa descontrolada. Ao entrar no quarto notou que o bebê estava dormindo confortável, a chupeta fazia movimentos convulsivos do sono profundo em que ele tinha caído. Karen levou as mãos até os cabelos e jogou-se na poltrona do quarto “Foi um pesadelo” ela pensou, “o choro dele estava no pesadelo e não aqui”.

Ela escondeu aquele estranho episódio do marido assim como costumava esconder tudo, mas Karen vivenciou outras situações inexplicáveis à medida que os dias passavam. Coisas em casa que se moviam de lugar, a TV que sempre ligava em um canal dessincronizado e chuviscoso quando ela limpava a sala, e o bebê que sempre chorava às 5:30 em um tipo de pesadelo insubstancial. Ela corria para o quarto e ele estava caído em sono profundo. Karen considerou a hipótese de estar enlouquecendo devido às contínuas pancadas que Julian lhe infligia na cabeça, procurou um médico especialistas. Após a bateria de exames ficar pronta Karen descobriu, com grande alívio, que tudo funcionava muito bem dentro da sua cabeça, o problema talvez fosse a mente e Julian.

Nos dois últimos anos Julian se transformara tanto que Karen cogitou a ideia de estar exausta mentalmente daquela vida, da forma inexplicável que ele se tornara uma besta descontrolada, desleixado, furioso e intratável. Julian passava meses sem sequer tomar banho e a maior parte do tempo estava sentado no sofá vendo televisão, esquecia-se de comer e algumas vezes urinava nas calças enquanto dormia. Tinha se tornado um fardo e Karen não sabia como se livrar daquilo porque, no fundo, ainda tinha alguma esperança do antigo Julian, o verdadeiro, retornar para aquela carcaça detestável que tinha se tornado. Ela se agarrava ás lembranças de como eles eram antes de Fallvile, como tudo era ... normal.

Na manhã que Julian desparecera, Karen procurou o pastor Jonas para obter apoio nas buscas. Jonas a acompanhou até a delegacia onde conversaram com Vincent, que em outros tempos fora o melhor amigo de Julian. Vincent colheu todas informações necessárias com Karen sobre os últimos dias de Julian em casa. No início ela se esquivou das perguntas, temerosa em abrir o jogo sobre a transformação de Julian, mas logo se viu contando tudo. Vincent ouvia tudo e anotava sem comentar, o rosto indiferente como se nunca tivesse ouvido falar de Julian antes.

As buscas iniciaram no dia seguinte, Karen sentia-se aliviada e culpada por isso, sentimentos conflitantes tomavam conta dela, queria que o marido fosse encontrado com vida e bem ao mesmo tempo que não queria nunca mais vê-lo, não aquele monstro no qual ele tinha se tornado. Porém, ela alimentava uma esperança ingênua de que ele pudesse voltar como antes e que o desparecimento no fim das contas talvez tivesse sido bom, talvez fizesse Julian voltar a ser ele mesmo.
 
V.
 
Após a conversa com Vincent, o professor Edmund se isolou em seu escritório por dias e noites. Ninguém na cidade o viu, na universidade pediu afastamento por problemas de saúde. O fato é que ele estava investigando suas suspeitas sobre a estranheza de Fallvile, inconformado com tudo que passavam ali. À noite coisas estranhas aconteciam nos becos e vielas da cidade, pessoas desapareciam sem deixar vestígios e nunca mais eram encontradas, apenas seus pertences ou alguma peça de roupa que usavam. Por isso, o toque de recolher foi estabelecido pelo prefeito, Edmund era jovem ainda quando essa lei foi decretada. Naquele tempo não questionou, pois, viu que era algo necessário, afinal pessoas estavam desaparecendo.

Com o passar do tempo, Edmund, passou a notar como as melodias que ecoavam pelos alto falantes transformavam as pessoas. Ele mesmo sentia-se estranhamente fora de si em alguns momentos e a partir de estranhas experiências que passou algo em sua mente despertou do embotamento, algo o fez questionar. Ninguém na cidade daria ouvidos às suas desconfianças, todos ali viviam tranquilamente e apreciavam a paz que reinava na comunidade. Não havia crimes, delitos, nada violento, a não ser por trás das portas das casas, as famílias escondiam a sete chaves os fatos absurdos que precisavam lidar, mas havia o pastor Jonas e Igreja para orientá-los e tudo aquilo parecia estar funcionando perfeitamente, cada engrenagem parecia se encaixar uma na outra.

Foi quando Karen e Julian chegaram na cidade que ele pôde notar como eram diferentes de todos habitantes da pequena Fallvile, como eram vívidos e corados, saudáveis. Edmundo passou a observar a transformação que a família de fora sofrera nos primeiros anos ali, Julian não conseguia controlar seu gênio forte, ao chegar ali parecia um homem pacato, de fala mansa e muito descontraído e Karen era uma mulher com bastante energia que adorava lecionar para as crianças.

Com o tempo ele notou o crescente mau humor e impaciência dela para com o próprio bebê que trouxera no colo, ela não percebia, mas o agredia com insultos sussurrados e pequenos gestos agressivos como jogá-lo no carrinho de bebê ou sacudi-lo com força para que parasse de chorar. O fato é que os habitantes de Fallville eram doentios, muito pálidos e sem energia, irritadiços e em alguns casos, psicóticos. Edmund passou a analisar as melodias que ditavam o cotidiano da cidade, nenhuma daquelas notas podiam ser possíveis na concepção humana, não existiam em qualquer tipo de escala musical já inventada, o próprio ritmo das canções era anormal.

Procurou um colega de profissão, um professor de música, mas ele não quis dar ouvidos à Edmund, as poucas pessoas com quem ele tentou conversar sobre suas suspeitas o acusavam de estar vendo problemas onde não haviam problemas. Por alguns momentos, Edmund quase chegou a acreditar mesmo que talvez estivesse ficando louco. Até a tarde nebulosa em que o corpo de Julian foi encontrado à margem do rio que cortava a cidade de fora a fora.

O professor Edmund chegou ao local após ouvir comentários pela cidade sobre o ocorrido, lá Vincent tinha reunido uma grande força policial para isolar o lugar. Edmund conseguiu atravessar o isolamento ao chamar o policial e pedir para ver o corpo, foi preciso muita insistência até Vincent concordar, pois, tinha Edmund como um pai. O professor aproximou do corpo e levantou o plástico negro que o cobria, estava bem conservado, como se apenas dormisse, ele notou que havia sangue coagulado nos ouvidos.

- Qual a causa da morte, Vincent? – ele olhou para o policial ao seu lado.
- O legista ainda vai chegar, mas eu arriscaria dizer que ele teve algum tipo de derrame pelo sangue nos ouvidos e no nariz. –

Edmund afastou-se da cena após analisar o corpo por um tempo, passou a caminhar pela floresta que cercava o lugar, deixou-se levar pela estranha melodia que ecoava mesmo ali na mata onde não haviam alto falantes. Chegou a uma clareira sem se dar conta que estava muito longe dos limites da cidade, ali o som parecia mais alto como se ele estivesse muito perto da fonte, ao levantar os olhos viu entre as copas da árvore as sombras de estranhas construções, pontiagudas que se erguiam para o céu, altas demais. Edmund caminhou mais, as pernas fraquejando pelas longas horas de caminhada, na idade que estava era difícil não sentir o corpo reclamando. Ao adentrar na mata fechada em direção às construções ele se deparou Julian ali em pé à sua frente, vivo, mas com um rosto paralisado como se não enxergasse Edmund.

- Julian? Meu Deus Julian? – Edmund o chamou, mas o homem virou e caminhou no sentido contrário indo em direção à melodia que se tornava mais distante agora. Edmund o seguiu, tentou chama-lo mais algumas vezes até o perder de vista. Julian havia entrando em algum lugar, Edmund ouviu o ranger da porta como algo pesado e enferrujado, mas seus olhos não puderam captar nada além da mata à sua frente e as estranhas formas pontiagudas que se emaranhavam entre as árvores. Por mais que Edmund tentasse alcança-la, não conseguia, elas pareciam próximas e distantes à medida que andava. Ele permaneceu assim, perseguindo as estranhas pontas de terraços e ouvindo as melodias se alternarem durante os dias e noites, eternamente.

Fallville agora procurava por outra pessoa desaparecida, Edmund, que logo seria esquecido com rapidez enquanto as cosias continuavam sendo como sempre foram.
Larissa Prado
Enviado por Larissa Prado em 19/01/2017
Alterado em 20/01/2017
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