O absurdo
por Larissa Prado
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A morte de Alba
 
"- Sem lágrimas, por favor.
É um verdadeiro desperdício de bom sofrimento."
(Clive Barker)
 
Nos trilhos do metrô um corpo descansava em posição fetal. O cordão de isolamento, amarelo berrante na penumbra da estação, mantinha o bom e inconveniente número de curiosos afastado. Dois policiais discutiam aos sussurros aquela situação:

- Ela está morta há pelo menos uns três dias...-

-Bem provável... e o rosto? Viu aquilo? –

O primeiro assentiu, seu rosto pálido denunciava o choque. As pessoas tentavam tirar fotos, se empurravam, mesmo à distância, a sociedade do espetáculo exigia esses tipos de registros bizarros. O superior dos policiais era o sargento Matias, ele estava próximo ao corpo, o único que conseguia encarar aquilo sem nenhum incômodo aparente.

Matias tinha entre os dedos um cigarro quase no fim, não parecia lembrar de termina-lo. Um dos policiais se aproximou e respirou fundo, mesmo coberta por um pano o cadáver era desagradável.

- Senhor, qual é seu palpite para isso? –

Matias saiu do seu transe reflexivo com aquela abordagem repentina:

- Andre, lembra-se de um crime que aconteceu na década de 40 que envolvia uma bela atriz iniciante que teve o rosto e o corpo mutilado? Dália Negra ficou conhecido por este nome... –

- Humn... lembro vagamente, senhor, por que?-

- Nada... só que essa cena me fez lembrar disso. Meu palpite é crime passional, por conta da brutalidade, era alguém que conhecia a vítima, pois, não teve resistência da parte dela, a não ser que estivesse drogada ou desacordada quando ele fez o que fez. Preciso descobrir mais sobre ela para poder encontrar o autor dessa obra de arte que encontramos – jogou a bituca e esmagou. Andre ficou parado meio perplexo enquanto Matias deixou a cena sem olhar para trás.

Levou muitos meses de investigação até que Matias pudesse reunir todas informações necessárias sobre a garota dos trilhos, como o caso havia sido nomeado pela mídia. Quanto mais o sargento aprofundava na vida dela menos sentido encontrava. Alba era uma garota no auge dos seus 17 anos, vinha de uma família pequena e muito religiosa que morava na área rural, dedicada a Igreja e aos estudos, não tinha qualquer envolvimento com pessoas perigosas e não possuía namorado. Ele se sentia frustrado e cansado, próximo de desistir e arquivar o caso como inconcluso.

Era madrugada, Matias acordou e seu rádio relógio marcava 3:20. Ao esticar a mão para o abajur na cabeceira descobriu que não havia energia. Sentou na cama atordoado pelo sono e pela escuridão. Do lado de fora um vento muito forte cuidava em derrubar árvores sobre postes pela cidade e causar aquele blackout em grande parte da região.

Matias saiu da cama e foi para a cozinha, podia sentir que algo estava estranho como se a casa não fosse dele, errou de cômodos várias vezes. A esposa e o filho adolescente estavam viajando na casa de parentes, Matias sentia falta deles, mas naquele momento quase podia sentir um pavor imenso em nunca mais revê-los, algo que considerou infundado e infantil por estar sozinho.

Com muito custo encontrou o caminho para cozinha, a mão deslizou pelo interruptor por força do hábito, a luz não havia voltado. Matias abriu a geladeira em busca do seu chá gelado e algo chamou sua atenção de imediato: uma vasilha de barro antiga. Não pertencia a ninguém de sua família ele tinha completa certeza e aquilo o arrepiou.

A princípio avaliou o objeto um tanto desconfiado para tirá-lo da geladeira em seguida colocando sobre a mesa. Matias ficou encarando a tampa da vasilha que não pesava quase nada por um tempo até que um raio iluminou toda cozinha e fez o sargento dirigir a atenção para a janela sobre a pia, alguém estava ali parado, espreitando. Ele deu um salto da cadeira com a mão em um coldre invisível na cintura do pijama. Voltou correndo para o quarto a fim de pegar seu revolver no criado mudo, a porta tinha sido trancada por dentro. Matias teve a sensação de estar preso em um pesadelo, a velha percepção que adquirimos diante fatos inconcebíveis pelo nosso consciente. Tentou se acalmar fechando os olhos e respirando fundo, estava prestes a se sentir mais equilibrado quando um ruído alto veio da cozinha como um grito aterrorizante no silêncio do meio da noite.

Matias correu aos tropeços de volta para cozinha, tudo estava como ele deixou exceto pela vasilha arredondada sobre a mesa, a tampa jazia no chão espatifada. Lenta e decididamente ele aproximou e espiou o interior do pote, o grito que veio foi inevitável e, estranhamente, fora o mesmo grito que ele ouviu antes de correr de volta.

No interior do pote estavam dois olhos emaranhados em seus nervos ópticos, eram azuis e opacos. Os olhos de Alba, a garota dos trilhos, o reconhecimento foi imediato. Matias passou dias demais vendo fotos e vídeos dela para súbito conhecimento. Sem contar a ausência dos olhos no cadáver sem a face.

- Que tipo de brincadeira é essa? – ele cuspiu as palavras em total fúria e assombro na direção da janela, não havia mais ninguém ali. Matias pegou uma faca e cobriu o pote com um pano. Todas tentativas em sair de casa foram inúteis, as portas tinham sido trancadas por fora. Desesperado, ele tentou usar o celular e o telefone fixo, porém, estavam sem sinal. Matias chegava então naquele ponto onde torcemos para acordar logo na segurança de nosso quarto, fechava e abria os olhos na tentativa de despertar, mas não tem como acordamos da realidade, mesmo que tentemos por toda vida.

Suor frio cobria sua testa enquanto acendia velas, trêmulo. Ao acender a terceira e se virar para apoiá-la sobre a TV, ele notou que o vulto da janela espreitava através do reflexo da televisão, às suas costas. Matias estagnou os passos, aquela sensação de petrificação dormente, permaneceu imóvel e incrédulo. A faca que estava na outra mão pesava e parecia que ele não conseguiria erguê-la caso precisasse.

- Que diabos!! – ele gritou e se virou na direção do vulto deixando a vela cair sobre um felpudo tapete no meio da sala. O fogo se espalhou com urgência, Matias encarava a sombra e pareceu não notar que aos seus pés a casa era tomada por labaredas nervosas.

- Vamos conversar? – uma voz murmurante saiu do vulto, mesmo na claridade do fogo ele permanecia negro em sua nebulosa forma humana de pernas longas. Matias pensou “Vá se foder!” não conseguia falar, o que não pareceu preocupar o convidado indesejado.

- Não, Matias, não se deve falar assim com um amigo. – ele podia escutar todo e qualquer pensamento do sargento e também parecia lhe causar aquela estranha paralisia.

“Não sou seu amigo, porra, quem diabos é você?” Matias gritou em sua mente, a fumaça fazia seus olhos arderem e a respiração se tornar pesada. O vulto se moveu com graça e leveza, na parede sombras de chifres se projetavam de trás de sua cabeça redonda e pequenina.

- Sou seu melhor amigo, de todos vocês assim como fui o melhor amigo de Alba, a garotinha do coral da igreja. Vocês se esforçam tanto para estarem próximos de Deus, serem amados e salvos, para agradá-Lo, não é? Isso tudo deveria ser de graça, mas não, Deus está sempre cobrando e impondo condições para que sejam amados. Eu sou seu verdadeiro amigo, deveria saber disso. – os olhos cintilaram em um azul-turquesa como eram os olhos de Alba em vida. Matias permaneceu calado, o fogo lambia suas pernas e espalhava-se por seu pijama. A dor era algo impossível, tão grande que o deixou dormente sem sentir mais nada.

“Não queria morrer...não assim” ele sussurrou mentalmente em uma humildade comovente.

- Ninguém quer realmente, mas você pediu por isso a cada cigarro tragado de minuto em minuto, a cada gole de bebida antes de dirigir e nas noites que leva o cano da arma até sua cabeça. Mas todas suas tentativas não passam de brincadeiras de criança mimada. Você pediu por isso de verdade quando começou a buscar por Alba, infiltrar em sua vida, ela é minha, Matias, apenas minha assim como sua alma será. Não gosto de ninguém remexendo no que é meu. –

O fogo subia pelo ventre do sargento, seu rosto era uma máscara azulada de pura dor, consumido pelas labaredas seu corpo começava a exalar o odor nauseante de carne e cabelo queimados. O estranho ficou ali, se agigantando entre o fogo, os olhos de Alba em seu rosto sem forma e um sorriso expansivo em uma boca larga: era uma face composta de elementos humanos diferentes, como uma máscara desenhada por diferentes artistas. Matias conseguiu retomar sua voz e só conseguiu murmurar
– OH DEUS COMO ISSO DÓI! – a face negra emaranhou-se pelas chamas, quase beijou os lábios de Matias antes de sussurrar doce e calma em seu ouvido – Sim, meu irmão, Deus sabe como dói e não se importa nenhum pouco. -
Larissa Prado
Enviado por Larissa Prado em 17/01/2017
Alterado em 18/01/2017
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