O absurdo
por Larissa Prado
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A coisa no escuro

Sentada na beira da cama com os pés frios, posso sentir que algo está me espreitando no escuro do quarto. Lá fora um vento frio faz as árvores convulsionarem. Ela está comigo, a coisa no escuro, a inominável coisa mortífera dos pesadelos e das noites escuras da alma. Seus olhos faíscam risonhos, amarelados como olhos de serpente, eu sei que ela está me fitando porque nos conhecemos desde a infância. Ela esteve lá quando completei 8 anos, e muito depois aos 18, agora que chego aos 30 ela parece ainda maior, sua presença é perceptível através da respiração gelada. Em madrugadas chuvosas ela desperta com sede e fome, preciso me concentrar em outras coisas que disputam parte do meu cérebro, mas ela não deixa, fica no canto do quarto se arrastando devagar, ansiosa e aflita por qualquer movimento que eu possa fazer.

O frio no ambiente é mortal, minha pele está tão arrepiada e fria que estar morta talvez não seja tão diferente disso. Levanto os olhos para ela, a coisa no escuro permanece parada embora eu sinta sua crescente impaciência. Digo a mim mesma que não vou me entregar a ela hoje, que vou resistir mais uma madrugada, são apenas olhos amarelados sem importância. Apesar de me seguirem durante toda a vida e em todos momentos sempre soube como dribla-los e ignora-los. Eu sabia como ignorar muitas coisas antes, hoje em dia, tudo está pinicando e tirando a calma. Tudo é motivo para que eu simplesmente levante o rosto e encare a coisa no escuro. A sensação mais forte é de cansaço, talvez devesse me entregar a ela, são tantos anos de resistência, a luta parece inútil agora como nunca me pareceu antes.

Fecho e abro os olhos, fito a janela, saio da cama e me arrasto até o banheiro. As garras da coisa quase me tocam, por um segundo posso até mesmo sentir seu hálito frio e fétido na ponta da orelha, ela me sussurra algo indecifrável, no fundo da minha cognição eu entendo e prefiro fingir ignorância como sempre fiz. Todos os fatos tão claros diante meus olhos e eu continuo mantendo-os fechados. Ao entrar no banheiro eu encaro o reflexo no espelho e noto como não passo de um espectro sem forma. Meus cabelos são apenas sombras dos fios luminosos de uma vida atrás. Eu estou no fim da linha e o beco sem saída parece próximo, ao meu lado a única companhia e ponto de apoio se chama a coisa no escuro. Uma pessoa falida na existência desde o primeiro suspiro, assim me sinto mesmo que meus médicos digam que sentir coisas é algo relativo, as coisas não são o que sentimos.

Todo papo psicanalítico já não me apazigua mais. Perdi há muito minha pouca noção racional da vida. Eu apenas sinto e deixo isso me consumir como um último gole do veneno que me faz prosseguir.

Há um véu que cobre o quarto em um tipo de existência vaga e nebulosa. Tudo são sombras e não consigo distinguir as coisas no breu. Caminho incerta sobre os próximos passos. Não tenho consciência de que dia é ou em que ano o mundo está vivendo, já que não faço mais parte disso tudo perdeu o sentido. Há uma vaga sensação que meus pés estão deslizando pelo chão, mas não parece mais que os sinto com certeza. Morrer deve ser um pouco assim e se já estou morta há tanto tempo não vejo mais motivos para desviar os olhos da coisa no escuro. Ela é tão faminta e insistente, seu esforço é louvável.

Sento-me agora no tapete e folheio algo, as letras e sentenças escritas saem das folhas para dentro da minha mente e não capturo nada. Penso se existe alguém com quem conversar, alguém que aplaque os ruídos que a coisa faz no seu canto. Não há ninguém mais. Um dia houve, uma ou outra voz amiga do outro lado do telefone, os poucos com quem podia contar desapareçam. A minha sombra é minha única companhia e mesmo assim ela parece se afastar a cada dia mais. Eu me deixo cair no tapete e vejo as espirais de poeira levantarem. O livro que folheava não faz sentido e meu coração parece um buraco oco. Eu creio que vou desistir, há esse prenúncio latente, essa dormência dos músculos e fadiga na respiração.

Disseram-me, certa vez, quão especial sou, todas palavras perdidas no tempo e no vento. Tudo o que me diziam nunca fez sentido. As palavras não podem nos dar a real dimensão do sentir. Sente-se verme e assim segue-se. Disseram-me que não poderia fazer do que sinto um fato, que as nuvens passam no céu, não ficam. Sentimentos não são confiáveis, não passam de meros embustes da percepção. A minha racionalidade foi tanta que me enlouqueceu, a lucidez foi o poço da minha desgraça. Sei de tudo que deveria saber e não consigo me apoiar nisso. Todas teorias e sapiência, todo conhecimento acumulado agora são nada como sempre foram. Eu sinto que a coisa no escuro finalmente saiu do canto em que sempre me espreitou quieta. Ela rasteja porque eu a olhei no fundo dos olhos amaldiçoadas. Seu imenso corpo gelatinoso e grotesco se aproxima meio incerto, devagar. Encaro seus olhos, não consigo mais detectar medo em mim, não sinto absolutamente nada além de cansaço. A coisa se entrelaça por minhas pernas, degustando o toque ela solta um ruído alto de triunfo. O mal está sempre pronto para o triunfo.

Um pensamento desconexo se manifesta nos meus últimos segundos, lamento o fato de ter me dedicado tanto aos estudos, às coisas irrelevantes para o girar do mundo material e mecânico, lamento tudo o que sou e peço perdão a mim mesma por tantos atos autodestrutivos infligidos no organismo e na alma. Sinto, pela primeira vez em 30 anos, um pouco de paz. Uma paz apática e cinza. Se pudesse colocar minha existência em melodia não passaria das variações em uma peça de Brahms, despencando entre altos e baixos. Altos cada vez mais baixos.

A coisa no escuro já está completamente visível nos primeiros raios de sol que entram pela janela. Em minha concepção ela é apenas uma enorme serpente gorda e grotesca com sua enorme bocarra escancarada em meu rosto, devorando cada parte de minha mente e se tornando mais e mais gigante. O quarto é tão pequeno para o tamanho da sua malignidade, os pequenos olhos amarelos dilataram as pupilas em puro deleite se tornando quase todos negros. Durante tantos anos, depois de tanta luta, ela venceu. Não sobra nada do que fui e o que me tornei é parte, agora, da coisa no escuro, o grotesco e o diabólico, tudo o que é corrompido e mau impregnando cada partícula do que fui. O mal é persistente, transfigurando-se em solidão, abandono e ausência, está sempre pronto para triunfar, e estamos sempre prontos para nos entregar, quase imploramos por isso. Quando se vive por tanto tempo com a Coisa no Escuro, os dias nunca possuem sol e as noites são eternas, temos o caos como única companhia e o cansaço como única certeza, nos tornamos parte dela.
Larissa Prado
Enviado por Larissa Prado em 14/01/2017
Alterado em 14/01/2017
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