O absurdo
por Larissa Prado
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Aqueles que ficam

Há algo sobre os mortos que todos nós deveríamos saber: eles nunca vão embora.

Izabel vivia correndo de lá para cá pela casa, arrastando um cachorro farejador de rodas que fazia um ruído insistente e perturbante, era como se ele e a pequena fossem um só. Izabel é minha única filha, sempre pedindo por um cachorro de verdade, solucionei o problema com o cãozinho de brinquedo, mas os ruídos atrapalhavam minha concentração na hora de escrever o que rendia várias broncas durante a semana. Resolvi um incômodo criando outro, era meu jeito de ser. Não tenho certeza sobre o que aconteceu com seu cão de brinquedo, as lembranças se misturam agora. Não tenho vivido bem nos últimos tempos, nunca mais consegui produzir nada realmente bom. Às vezes perdemos parte de nós pelos caminhos obscuros que a vida toma, uma parte grande demais para recompor.

Eu e minha esposa estávamos discutindo muito nas últimas semanas, deixando assim Izabel cada vez mais sozinha. Quanto menos atenção dávamos a ela mais inquieta se tornava. Elisa e eu discutíamos por causa da venda de nosso chalé e da compra de um apartamento barato em um condomínio popular. A vida não estava fácil, sem publicar nada há quase oito meses, eu não tinha muito o que fazer para sustentar a família. Elisa deixou o trabalho por acreditar que tinha se casado com um escritor talentoso. Meus livros não vendiam mais como no auge da minha meteórica carreira como autor de obras de fantasia. Eu estava perdendo algo no caminho e não era bem a criatividade, era mais o gosto pela escrita. Não sentia o mesmo impulso em criar histórias como na juventude. Impus para mim uma meta de escrever algo realmente impactante e sombrio, a meta se tornou obsessão. Não passava um dia sem tentar escrever algo. O que não sabia era que a pior história de horror se tornaria minha própria vida.

Com toda tensão dos últimos conflitos Elisa não conseguiu se sustentar, entrou em um estado declinante. Vagava silenciosa pela casa como um fantasma em sua camisola branca durante todo o dia. Não dividíamos mais o quarto, eu só conseguia dormir no antigo sofá velho do porão. Noites insones se acumulavam. Elisa sempre me lançava um olhar acusatório nas poucas vezes que subia para cozinha, começava a sentir-me oprimido por ela. Enquanto isso, Izabel continuava aprontando todas, gritando que queria uma casa na árvore. Ela continuava gritando isso, e o mais curioso é que eu já havia providenciado uma na imensa árvore do quintal, só queria que a pequena se acalmasse.

Certa noite, quando me preparava para mais uma madrugada de angústia no sofá, Izabel apareceu no topo da escada do porão, seu rosto sangrava de um lado e mesmo assim ela sorria. Corri para ampará-la e ao abraça-la senti seu pequeno corpo tornar-se pó. Outro pesadelo. Acordei sobressaltado, o coração na garganta. Resolvi tentar escrever mais, a luminosidade do computador me despertava os pensamentos mais soturnos e desconexos. Queria conferir se ela dormia em segurança no seu quarto, mas não conseguia subir as escadas. Algo me impedia de realizar o trajeto, uma espécie de exaustão doentia.

Fiquei mergulhado em um silêncio mortal e incômodo por toda madrugada, encarando a tela do computador sem conseguir escrever nada. Lá fora, o vento soprava forte, podia ouvir os galhos da árvore balançando e rangendo, um som parecido com o cãozinho de brinquedo de Izabel quando era arrastado pela casa. Por mais que forçasse a memória, não sabia o que tinha acontecido com ele. Fechei os olhos com força tentando driblar o pânico crescente que sentia em perder Izabel. Não sabia ao certo se era a insônia, o cansaço, o casamento em ruínas, mas ao imaginar a vida sem minha pequena garota só conseguia sentir um buraco negro crescer no estômago. Abri os olhos e consegui ignorar o princípio do desespero ao digitar palavras aleatórias no computador. 

As semanas passaram, tais situações angustiantes se repetiam em um círculo vicioso, Elisa fantasmagórica, Izabel gritando pela casa arrastando seu brinquedo, e uma estranha força diabólica crescendo dentro de mim. Era como se sentisse necessidade de destruir tudo à minha volta, a voz da pequena me irritava a ponto de me fazer urrar de raiva em algumas manhãs. Certo de que isso não acabaria nunca, fui até a dispensa e procurei minha antiga máquina de escrever toda empoeirada, mas ainda em pleno funcionamento. Coloquei-a no meio do porão, o único cômodo que usava. Aquela máquina vivenciara meus melhores momentos como escritor, acreditei que poderia revivê-los ao tê-la como instrumento de produção novamente. Superstições tolas que se nutrem de uma mente esgotada.

Comecei a escrever o que agora relato na tentativa de dar sentido às palavras, aos últimos acontecimentos da minha vida. No ar, havia um cheiro pútrido que eu responsabilizava a ninhada de ratos que agora vivia entre as paredes lá debaixo. Podia ouvi-los correndo o tempo todo. Aquele som quebrava o silêncio em que ideias soturnas se apoderavam de minha mente. O odor ficava cada dia mais forte e quando questionei Elisa sobre aquilo ela me olhou com seus olhos leitosos e sem vida conservando seu silêncio. A máquina funcionava sem parar fazendo uma sinfonia estranha com as passadas dos roedores nas paredes. Não esbarro mais com Elisa ao subir, ela sequer faz ruídos ao caminhar. Felizmente não sonho mais com Izabel indo embora. Eu a observo correndo lá fora pelos vidros das janelas subindo aqui do porão, subindo e descendo da sua casa de árvore.

À medida que escrevo esse relato coisas inexplicáveis acontecem. Elisa não sai mais do quarto, sua porta está sempre fechada. Izabel corre pela casa durante a noite derrubando tudo que encontra pelo caminho ao arrastar o seu cãozinho barulhento – esse ruído jamais deixa meus ouvidos-, e agora tem os ratos. Invadiram os cômodos, principalmente a dispensa repleta de coisas inúteis. Resolvi limpá-la na tentativa de conter os roedores e o que encontrei lá me fez tomar a decisão que irá finalizar a história. Quando tirei uma antiga máquina de lavar e um amontoado de objetos antigos, inclusive o antigo cão de brinquedo de Izabel, deparei com o que me fez perder o resto da força vital.

Os olhos da minha esposa me encaravam em conjunto com um sorriso arreganhado e amarelo. Ratos saíam da cavidade do olho esquerdo já totalmente devorado, o olho direito era um pulsar repugnante em carne viva, o maxilar pendia como se gargalhasse e metade de sua cabeça estava aberta, amassada e oca. Os roedores estavam fazendo a festa. Seu corpo em decomposição estava envolvido numa mortalha que era nosso cobertor feito à mão por minha sogra. Os cabelos já estavam ralos podia-se ver o couro cabeludo se deteriorando. Eu não contive a repulsa, virei-me sem ar e vomitei ali mesmo no chão da despensa. A luz pendurada balançava irregular e bruxuleante, uma avalanche de ratos saiu de trás daquele cadáver para se banquetear com meu vômito. Corri para longe dali, voltando aos tropeços para o porão. A claridade do fato me atingiu, lembrei-me da última discussão que tivera com Elisa, da forma como seu corpo caiu no chão, a forma como a ataquei com o cutelo de cortar carne, chocando o cabo contra seu crânio, rasgando o rosto com a lâmina.

Tudo aquilo pertencia à memória de um homem que não era eu. Demorei a me recompor, passei um dia inteiro apenas sentado no chão recostado no sofá ouvindo os ratos na despensa misturando seus ruídos ao som do cão de brinquedo, e a voz da minha esposa morta gritando calúnias. Havia escondido no fundo do meu guarda-roupa um revólver calibre 38, possuía a arma pelo medo paranoico que Elisa sempre teve de arrombamentos durante à noite. Busquei a arma, tateando o caminho como uma criança aprendendo a andar.

Antes de engolir o cano do revólver e puxar o gatilho, resolvi deixar esse relato registrado, finalmente minha última e única obra sombria. Posso ver Izabel agora, entrando correndo pela porta de casa, gritando alegremente que achou um cachorrinho de rua abandonado, pedindo para adotá-lo, que cuidará dele e o amará. Eu posso senti-la me beijando no rosto onde lágrimas quentes queimam minha face gelada, nestas últimas imagens ela não caiu de cabeça do alto da árvore, não há sangue em seu rosto, e posso ouvi-la murmurando Não vai doer nada, papai. Você vai dormir e quando acordar poderá ir comigo para casa da árvore. Eu escuto minha voz saindo, como se não fosse minha, e sim, de alguém a quilômetros de distância Não Izabel, para onde vou, você nunca poderá ir, nunca mais.
 
Larissa Prado
Enviado por Larissa Prado em 11/01/2017
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