O absurdo
por Larissa Prado
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Reunião

Parado diante o espelho observando a forma que meus músculos flácidos caem sobre o cinto da calça. Uma barriga grotesca sobressalente se destaca em um corpo que era para ser gordo e se tornou magro. Sei que sou um espectro obsoleto, não deveria ter aceitado o convite de Catarina para a reunião anual dos ex-colegas do colegial. Deveria ter permanecido na inércia da existência afundado no sofá da sala vendo os mesmos programas na televisão, todos não passam de reprises e mesmo assim continuo revendo. 

Eu sei que não deveria estar diante do espelho fitando meu reflexo amorfo porque isso só me traz duas coisas: desespero e fadiga. Não sei ao certo onde foi que abandonei grande parte de mim, essas coisas acontecem sem que possamos notar que estão acontecendo. 

Penteio o cabelo molhado todo para trás, puxo bem até a testa repuxar, eu sei que tenho um rosto bonito, a beleza nunca vai embora de todo, deixa sempre um resquício nos traços faciais. O resto é degradante, mas ainda conservo olhos turquesa que sempre enlouqueceram as garotas. Talvez eu tenha sorte e beije Catarina de novo como fazíamos no colégio, afinal de contas essas reuniões anuais são para recordar, colocar as memórias em dia. Estamos todos cada dia mais velhos, é o processo natural da vida, matéria em decomposição.

Saio de casa, antes encho as tigelas dos meus cinco gatinhos de ração, eles saem miando dos lugares mais inimagináveis da cozinha. Faz parte, eu acho, de terem nascido felinos, estão sempre se esgueirando pelos cantos em silêncio, miando e roronando. Deve ser um saco ser um bichano castrado, mas ou eu castrava-os ou teria enlouquecido com toda aquela energia e necessidade de pular os muros dos vizinhos. Entro no meu carro e vou para o endereço de Catarina, esse ano será lá o reencontro, no ano passado foi na casa de Henrique que morreu de cirrose há menos de 3 meses. Em algum momento ele será assunto nas rodas, a forma que se matou de tanto beber, mas todos nós ali reunidos estamos nos matando aos poucos, a diferença foi que Henrique sempre foi o mais objetivo da turma. Deixou-se morrer por aquilo que mais gostava que era beber.

Quando desci do carro e toquei o interfone de Catarina não suspeitava do nível de ansiedade que conseguiria alcançar em revê-la. Minhas mãos tremiam em conjunto com as pernas. Uma tolice ainda estar apaixonado pela garota do colegial, agora está mais pesada, mais gasta e sofrida, mas conserva os olhos amendoados da juventude. Todos os problemas estão nos olhos, deixe-se apaixonar por eles e nunca mais se livra disso.

Ela abre a porta segurando um Martíni, parece feliz em me ver. Está diferente de uma forma grotesca, os longos cabelos loiros estão tingidos de uma cor que parece bosta de vaca e embaixo dos olhos bolsas gordas pendem em olheiras. Catarina tem passado por maus bocados desde que o marido morreu de câncer deixando-a com três filhos adolescentes. Mas eu foco a atenção nas suas íris, não possuem o mesmo brilho de antes e noto que ela também percebe que estou mais magro e derrotado. Cumprimentamos sem muita euforia, é apenas uma troca de breves beijos frios nas bochechas. Entro e reencontro os outros pela sala, estão conversando sobre o passado como se isso fosse nos fazer rejuvenescer de alguma forma.

Cada ano que passa essa reunião se torna mais sofrível, creio que é porque a cada ano estamos mais desiludidos, gastos e acabados. Ninguém é feliz de fato, todos estão sorrindo abertamente mas eu sinto o peso amargo de todos arrependimentos e frustrações. Estamos na casa dos 40, todos nós, e gargalhamos de lembranças que cultivamos dos 17 e 18 anos. Por um momento me perco observando Catarina sentada no sofá ao lado de Miranda, sua melhor amiga naquela época, as duas estão tão melancólicas que os sorrisos não conseguem se sustentar. Penso em propro um suicídio coletivo ou que simplesmente saltemos na piscina dos fundos de roupas como fazíamos nas festas do colégio, nenhum das alternativas seria bem acolhida. Afundo no sofá e fico ouvindo as vozes familiares das pessoas com quem compartilhei os anos mais incríveis da vida, não as reconheço mais.

Levanto e me sirvo de mais um Martíni. não sei quando foi que Catarina começou a beber tanto, deve ter sido depois da morte de Julio. Eu amava essa garota, hoje em dia ainda conservo esse amor juvenil envolvido em uma camada de comiseração pela mulher infeliz, embora rica, que ela se tornou, idêntica à mãe a quem sempre criticou até nos trejeitos cansados. Espero que nossa anfitriã fique sozinha perto da mesa dos aperitivos e digo "Eu senti sua falta, Catarina" de um jeito meio bobo e adolescente, como costumava fazer quando voltávamos das longas férias de verão. Ela levanto os olhos para mim e não vejo nada além de apatia e um sorriso exausto. "Eu também, Victor..." ela me dá um tapinha no ombro e volta para o lado de Miranda que conserva as mesmas bochechas coradas de sempre em um rosto flácido e enrugado de tanto sol e maresia.

A noite corre assim meio monótona envolta em sorrisos e lembranças. Começo a avaliar a situação da minha aparência no espelho da sala, o rosto está cadavérico e meio ressequido, as roupas estão tão folgadas como se tivesse perdido uns 10 quilos desde que cheguei ali. Eu noto que Catarina olho para mim e uma lágrima escorre de seu rosto. Volto a me aproximar dela, coloco a mão sobre seu rosto, mas ela vira e fita Miranda que está afagando seus cabelos. Todos ali parecem não me ver, apenas Catarina, e noto, triste e resignado, que estar morto é pouco como tentar resgatar lembranças perdidas que nunca voltarão a acontecer. A gente perambula por aí, tentando experimentar tudo de novo, tentando ser como eles e a única coisa que consegue e se deparar com o vazio da própria ausência. Meus antigos amigos continuam relembrando dos tempos que éramos jovens, enquanto meu espectro vaga entre eles, tentando alcançar o inatingível. 

 
Larissa Prado
Enviado por Larissa Prado em 10/01/2017
Alterado em 10/01/2017
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