O absurdo
por Larissa Prado
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À deriva no absurdo

Depois do quarto copo de whisky as ideias sempre se assentam, tudo começa a fazer algum sentido. Eu tinha decidido que era hora de uma drástica mudança de rumo, algo precisava acontecer. Quando as coisas permaneciam estagnadas dessa maneira enlouquecedora era preciso forçar o destino a mudar.

Não foi bem uma decisão, eu tinha em mente que precisava sair de casa, expandir horizontes. Toda essa conversa sobre liberdade e mudança sempre é mais satisfatória enquanto está apenas na confabulação da mente. Quando começamos a empreender para mudar algo em nossa realidade não é tão agradável quanto nos sonhos. Existem muitas coisas más no mundo apenas esperando a chance para acontecer, estão à espreita no total sigilo.

Foi assim comigo, estava tão enfadado da minha vida, tão apático frente a todo marasmo e monotonia que decidi empreender uma longa viagem de barco. Morávamos no litoral, eu, minha mãe, padrasto e minha pequena irmã de 8 anos, Caroline. Meu padrasto era dono de uma famosa rede hoteleira, vivíamos bem, éramos ricos, mas muita coisa faltava na minha cabeça. Não dá para preencher lacunas da nossa alma com todo dinheiro que tínhamos. Quanto mais gastava mais vazio me sentia. Deve ser por isso que nos países mais ricos as pessoas cometem mais suicídios. As coisas mais importantes da vida não podem ser adquiridas com dinheiro, infelizmente.

Acredito que meu declínio começou depois que entrei nos 30 anos de idade. Não era só eu, notava que minha mãe também vivia a base de calmantes, não aceitava o fato de estar cada dia mais velha e desiludida. Meu padrasto concentrava toda sua energia de vida no trabalho e Caroline, acho que por ser filha de pais já tão envelhecidos, passava a maior parte do tempo sozinha brincando com amigos imaginários. Não éramos unidos, apesar de aparecermos em fotos de revistas como a típica família de comercial de margarina. No cotidiano, mal nos conhecíamos ou falávamos um com o outro.

A viagem era mais para espairecer as ideias. Nunca fui um homem de pensamento aguçado, apesar de ter estudado nos melhores colégios, não tinha ambição alguma em me formar em alguma universidade, por isso, não ingressei em nenhuma com a cômoda certeza que quando meu padrasto morresse precisaria apenas gerir seus negócios. Não parecia um trabalho tão difícil. Sempre me gabei da minha mente sagaz e rápida, daria conta de fazer qualquer coisa desde que tivesse motivado, o problema era que nunca estava motivado com nada além de dormir e beber.

Ganhei o iate do meu padrasto quando completei 24 anos. Usei ele em festas para amigos e para impressionar garotas, mas depois de um tempo acabei abandonando-o por puro tédio de uso excessivo. Quando se tem tudo à mão acabamos nos entediando fácil. Resolvi fazer a viagem sozinho. Nos últimos dias gostava muito de passar o tempo sozinho, caminhando pela areia da praia. Nossa casa era de frente para o mar e acordar com o barulho das ondas era um privilégio de poucos.

Marquei de sair para alto em mar no meu aniversário de 31 anos, despedi-me da minha família, como era de esperar minha mãe encheu os olhos de lágrimas. Não sabia se ela chorava por mim ou por ela mesma, talvez o fizesse por ambos. Minha pequena irmã apenas acenou sorridente sem compreender a dimensão das coisas que a cercavam e das que aconteciam em sua vida, meu padrasto me desejou boa viagem estava cansado e enfadado. Antes de embarcar chequei tudo que precisava. A ideia era atravessar um pedaço do mar e ir passar alguns dias em uma das pousadas que meu padrasto tinha numa ilha paradisíaca próxima. Estava tudo acertado com os funcionários de lá. A minha perspectiva era a melhor possível, os raios de sol fortes incidindo no meu rosto só anunciavam que tudo daria certo. Não era exatamente uma drástica mudança mas era tudo o que conseguia pensar para sair da minha rotina maçante de um vagabundo da classe média alta entediado.

Quando entrei no barco abri o meu gps e deixei ele ao sabor do vento. Fazia um dia quente e seco, estava tudo controlado. O vento não passava de uma brisa e o iate deslizava pela superfície. Deixei-o por si próprio e fui tomar whisky no quarto que ficava no subterrâneo. Por lá mesmo acabei ficando, a cabeça carregada de sono m fez pegar no sono. O que era para ser apenas um cochilo se tornou um apagão. Dormi profundamente como não conseguia fazer há dias, quiçá anos.

Não sei por quanto tempo permaneci submerso naquele sono ébrio, mas quando acordei, assustado e desnorteado, subi os degraus correndo e notei que o sol tinha ido embora. Restava apenas o breu de uma noite sem estrelas. Tentei ligar os faróis do iate, mas eles não acenderam. Notei que o barco estava à deriva, não se deslocava mais pela água. Era possível que tivesse sido uma pane, algo do tipo, pois, alguns dias antes tinha feito um verdadeiro check up nele todo. A princípio não me desesperei, estava atordoado o suficiente para não conseguir pensar com clareza na situação. Pouco a pouco, conforme nada no barco funcionava mais comecei a entrar em pânico. Olhava em volta e via apenas a imensidão do mar se fundindo à imensidão do céu escuro. O silêncio era mortal e só havia o marulhar das águas e algum outro ruído que meus ouvidos não conseguiam definir o que era, parecia algo sonar, abaixo demais da capacidade humana de percepção.

Fiquei parado na beira do iate, as mãos trêmulas apoiadas nos beirais metálicos, sentia meus olhos ardendo por conta das lágrimas. Eu estava perdido, impossibilitado de seguir adiante, sendo levado ao sabor do vento e das ondas. Aquela situação fazia meus ossos tremerem, estava tão frio e escuro. Corri de volta para o quarto e lá permaneci. Achei que o mais sensato seria esperar que o dia amanhecesse, ficar lá em cima com o frio e a escuridão não me levaria a nada além do pânico e desespero.

Enchi mais uma vez o copo de whisky, abrindo uma nova garrafa, o balanço do barco fazia meu estômago rodopiar. Corri duas vezes ao banheiro e coloquei para fora todo álcool ingerido. Estava jogado na cama apertada, quase deixando o sono pesado me levar de novo quando escutei passos acima da minha cabeça. Meus ouvidos entraram em estado de alerta, sobressaltei na cama e tentei definir o que estava acontecendo e até que ponto acontecia de fato. Não ficava embriagado com facilidade mas comecei a cogitar a possibilidade de delírios de bêbado. Aos primeiros passos se juntaram mais e mais, como acontecia quando dava minhas festas ali e as pessoas perambulavam por cima.

Não sei onde arranjei coragem para sair do quarto e ir checar o que era aquilo. Minha própria incredulidade me fez movimentar. Na minha cabeça tudo aquilo não passava de um sonho ou um delírio. Ao chegar lá em cima do iate deixei o copo de whisky cair da mão, espatifando pelo chão e chamando atenção dos convidados indesejados.

Eram três, mas ao caminharem faziam ruídos de uma multidão. Suas cabeças membranosas tinham olhos pequeninos, pretos e inquietos, como olhos de insetos. Mas suas peles eram brilhosas no escuro, cobertas de musgo. As criaturas meio humanoides se erguiam sobre pernas como as minhas, embora parecessem deslizar em tentáculos e não caminhar sobre pés. Eles se aproximaram com uma rapidez assombrosa e meio anfíbia. Fiquei parado, sentindo cada parte do meu corpo ceder ao trêmulo desespero. O que me fez permanecer de pé foi pensar que aquilo era um pesadelo, fechei os olhos com força na tentativa de despertar na cama, ao invés disso senti a respiração molhada das três criaturas próxima ao meu rosto e corpo. Eles estavam em farejando e emitiam um ruído baixo e sonar, deduzi que era o estranho ruído que ouvi antes, imperceptível aos ouvidos humanos, mas que pareciam constante no silêncio da noite.

Uma das patas tocou meu rosto na altura dos olhos, deslizando até a boca, tinha uma textura mole e esponjosa, como se no lugar dos dedos possuísse ventosas que aderiam com facilidade fazendo pequenos movimentos de sucção. Aquilo fez meu estômago embrulhar mais uma vez, mas engoli o vômito e abri os olhos com lentidão. O rosto de um deles estava tão próximo que me vi refletido no seu pequeno olho astuto e brilhante. Pareciam olhos de um ancião, tinham um quê de ancestral na forma que ele me encarava. Consegui emitir algumas palavras em total desamparo:

- O que são vocês? Estou sonhando? –

Minha voz saiu tão fraca que eu mesmo não acreditei que tinha falado, parecia mais um pensamento. As criaturas assustaram-se com meu murmúrio e se afastaram para um canto do iate, notei que eles me avaliavam à distância. Na escuridão só podiam vislumbrar a palidez quase transparente das membranas de suas peles e os olhos que acendiam como os de animais no escuro. Os ruídos cessaram por um momento, e logo continuaram confabulando. Eu permaneci paralisado, minhas pernas estavam tão trêmulas que se caminhasse iria cair.

Quando estava quase me obrigando a avançar na direção deles, escutei um estrondoso ruído subir das águas. Nunca tinha ouvido uma baleia a não ser na televisão, o som pareceu muito com o esguichar de uma. Minha atenção toda voltou-se para o jato de água que se erguia no céu e para o redemoinho que abriu ao lado do iate. Procurei as criaturas, mas àquela altura tinha desaparecido. “É um sonho, apenas um sonho” tentava me acalmar dizendo a mim mesmo. Um tentáculo surgiu no céu e caiu pesado sobre o chão do iate, do centro do redemoinho pude ver um enorme olho brilhante, era como o das criaturas humanoides, embora fosse maior e mais violento, quase avermelhado. Eu gritei, na verdade, soltei um urro de pânico e me espremi no lado oposto do iate onde aquele grotesco tentáculo não pudesse alcançar.
Não tinha como fugir do contato daqueles braços aquáticos, mais e mais tentáculos subiram das águas e abraçaram a embarcação.

Por um momento acreditei que morreria ali, o tempo todo pedia para que não caísse na água, não pudesse ver a criatura por inteiro, o pouco que via era enlouquecedor. Mesmo contra minha vontade permaneci de olhos bem abertos, captando tudo, cada loucura daqueles instantes horríveis. O olho preto e brilhoso se tornara vários olhos pretos em uma cabeça arredondada de molusco. “É um sonho” continuava sussurrando para mim mesmo agarrado ao banco do iate. Mas nos sonhos nunca nos ferimos de verdade, nos sonhos as coisas não têm o poder de nos transformar na materialidade da realidade como aconteceu ali. O movimento brusco que o barco fazia me lançou contra o chão, bati a cabeça com tanta força que perdi a consciência: nos sonhos não perdemos a consciência, pois, não a temos mais sob nosso controle.

Os raios de sol atingiram meu rosto me trazendo de volta. A primeira coisa que senti foi uma terrível dor de cabeça. Por instinto coloquei a mão no local da dor, na parte de trás da nuca, estava úmida e notei que era sangue já coagulado. Fiquei perplexo, lutando para tentar me levantar. Quando consegui me colocar de pé notei marcas no assoalho do barco, lascas de madeira foram arrancadas e ele estava amassado em vários locais. Sonhos não podem nos ferir, era isso que pensava enquanto constatava os estragos da estranha experiência noturna. Olhei em volta e ao longe notei a encosta que me levava ao meu destino. Dali podia notar que a pousada estava apinhada de pessoas. Alguns funcionários me aguardavam na doca, solícitos me ajudaram a descer do iate, eles perguntavam o que havia acontecido e eu não pude me expressar de maneira alguma. Apenas sussurrei algo em relação a uma tempestade.

Fui instalado no melhor quarto da pousada, recebi curativos no pronto socorro da região, o médico notou que haviam várias queimaduras espalhadas pelo meu corpo como as que água-viva e estrelas-do-mar deixam. Ao me deitar durante as noites ainda posso ouvir os ruídos sonares do abismal fundo do mar, uma região abissal inexplorada. Não me incomodo com isso, e sim, com os pensamentos que me fazem ter contra minha vontade. Todos relacionados à destruição e morte, uma parte de mim adormeceu para sempre em alto mar no breu daquela noite, uma parte muito boa e bonita de mim se perdeu naquele contato estranho com criaturas inimagináveis.

Quando retornei para casa, permanecendo mais tempo do que o planejado na ilhota, não reconheci a fisionomia chorosa de mamãe ou os olhos cansados do meu padrasto. Minha pequena irmã não passava de uma irritação diária com suas brincadeiras infantis. Não conseguia sentir mais nada em relação a eles, nem mesmo o marasmo de antes me afetava. Passava longas horas do dia, às vezes dias inteiros, apenas sentado na varanda do meu quarto fitando ao longe as ondas do mar, aquele movimento me enfeitiçava e atraía. Os ruídos sonares aumentavam, podia distinguir claramente o que queria dizer no fundo da minha mente, era como uma telepatia, uma comunicação secreta. Com o tempo, não era apenas minha mente afetada pela experiência em alto mar, mas minha própria aparência no espelho.

Minha pele estava se tornando sensível ao sol, membranosa, translúcida e dolorida. Os olhos sofriam com uma ardência irrefreável, era como se minhas pupilas tivessem tomando conta de todo o globo ocular. Sentia tanta sede que ingeria água de forma ininterrupta o dia inteiro. Certa manhã, ao observar minhas mãos que padeciam de ferozes coceiras, notei que os dedos estavam unidos por uma fina membrana, aquilo foi o suficiente para me fazer entrar em um desespero obscuro e lento. Minha mãe e padrasto estavam sempre ocupados demais com suas próprias vidas e não perceberam a estranha transformação que me acometia.

Para justificar meu desaparecimento acabei por escrever todo este relato e deixar para que possam compreender, ou pelo menos tentar compreender, que fiz o possível para me manter são. Nunca falei do que aconteceu aquela noite, ninguém acreditaria. Há situações que mesmo presenciadas e captadas pelos nossos olhos humanos, a mente não pode processar, ela levanta barreiras que impede que possamos conviver com o sobrenatural. Os ruídos continuam clamando por minha volta, e para o alto mar fui pela última vez. Na cala da noite, a bordo de meu barco, voltei ao local onde começou todo drama que se tornou minha vida. Lá, eles vieram, centenas e milhares deles, as criaturas da noite e do mar, com seus tentáculos e ruídos sonares, porque às vezes precisamos forçar o destino a mudar drasticamente, mesmo que não saibamos ao certo que tipo de mudança encontraremos.
Larissa Prado
Enviado por Larissa Prado em 27/12/2016
Alterado em 27/12/2016
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