O absurdo
por Larissa Prado
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Cova rasa

Enquanto estive ali parado fitando o buraco remexido, muitas coisas se passaram em minha cabeça, todas elas estavam relacionadas com a fugacidade da vida, o último suspiro, a fragilidade da estranheza de olhos opacos. Eles continuarão desperdiçados, cegos e tortos.
 
*

Não passava da meia-noite quando Elise entrou pela porta da frente, trazia nas mãos o que restava de um café amargo e frio. Trabalhar no turno da noite estava esgotando suas energias, mas era isso e era melhor que nada.
O filho de dois anos dormia tranquilo em seu quarto ao lado da babá. Elise dispensou a garota e foi tomar banho. Durante aqueles minutos em que a água tocava seu corpo cansado ela lembrou com estranho alívio que o pai do garoto estava bem longe e que as coisas entre eles não tinham dado certo. Elise se perguntava por que aquilo a fazia sorrir? Talvez fosse a solidão, havia prazer em ser sozinha, ter o silêncio do mundo para si. Ela sabia que estava em paz pela primeira vez na vida e aquilo era assustador de uma maneira quase fascinante.

Elise desligou o chuveiro, seus pensamentos passaram para as obrigações cotidianas do dia seguinte. Enquanto escovava os dentes rememorava a lista de compras e contas a serem quitadas. Ainda sentia a sensação de alívio e assombro. O relógio marcava meia-noite quando ela abriu a janeleapara que uma corrente de ar circulasse e se deitou para o sono.

Presa em um sono asfixiante, ela movia os pés na cama, tentando se livrar da pressão insuportável que sentia no centro do peito e imobilizava seu pescoço. O ar começou a ficar pesado e difícil. Elise arregalou os olhos e a boca, aterrorizada, se deparou com aquela silhueta sobre seu corpo. O sonho que não era sonho assim como o alívio que não trazia alívio: as aparências das sensações. Engasgada com a própria garganta inchada tentou formular palavras “Por favor” a súplica para não ser morta ficou estagnada e subentendida nas suas desesperadas expressões faciais arroxeadas. Mãos fortes esganavam-na e a última coisa que Elise pensou antes de desfalecer foi que esquecera de ligar a babá eletrônica no quarto do filho.

Quando recobrou a consciência ela sentiu-se diminuída por inteiro, literalmente. Tinha os braços e pernas amarrados atrás das costas, comprimida em uma cova pequena e rasa. O homem que não passava de uma enorme sombra ao luar encarava de cima, seu rosto era uma máscara sem face emoldurado pela penumbra, flutuava. Elise tinha a boca amordaçada e o pescoço parecia desprender-se a qualquer momento. Tudo o que conseguia pensar se resumia ao porquê daquela situação. Seus olhos interrogavam a figura nas sombras, estava desesperada mesmo que sentisse resignação.

 
*

Primeiro foram as pernas, precisei quebrar as articulações a fim de fazê-la caber no buraco, calculei errado seu tamanho, um erro que não me permitirei repetir. Sabe o quanto é complicado quebrar articulações humanas? Existe resistência nos ossos, algo desconfortável de fazer ceder. Ela ficou imóvel ao me olhar e constatar o que acontecia, não sei mensurar até que ponto ela entendia, parecia apenas assustada e indefesa. Tinha algo em seu rosto que beirava às lágrimas, mas não escutei choro. Depois das pernas estiquei também os braços até as costas, ela ficou nessa posição desconfortável, então comecei a jogar pás de terra preta.

É preciso começar pelos pés, assim como na maioria das plantas é onde estão as raízes, você cobre bem os pés para não ter perigo de perder a muda. A princípio não senti a resistência dela, foi quando comecei a cobrir o rosto que notei movimentos espasmódicos de aflição. O que é um ser humano sem rosto? É uma das partes mais frágeis que possuem, onde toda sua história deixa marcas e sinais. Eles só se reconhecem através dos olhos, quem sabe dos cheiros também, toda identidade se resume ao formato dos rostos. Àquela altura ela tinha se lembrado de lutar e tentou se soltar, mas foi tudo em vão.

Não demorei a soterrá-la, a prática leva à eficiência depois de tanto tempo fazendo o que faço. Elise estava completamente enterrada na cova rasa mal projetada que lhe ofereci. Ainda pude notar a movimentação sutil sob a terra para minha total frustração. O resultado esperado não é o sofrimento, nunca é e nunca foi. Se eu estava enterrando mais uma é para que ela pudesse florescer, renascer, mas eles nunca entendem, deixam-se afogar pela terra preta. O desespero é um véu e uma mordaça, não permite que o ar da revelação entre pelos pulmões. É lamentável pensar sobre todo esforço da criação inválida, defeituosa e atrofiada. Sofri por ela, assim como sofri por todos anteriores, mas como disse o sofrimento nunca foi o resultado esperado, entende?

 
*

Elise abre os olhos para um mundo de trevas, ali é apenas seu quarto banhado pelos primeiros raios de um sol frio do inverno. As pernas doem em todos lugares como se tivessem sido trituradas, os braços doem e a cabeça está pesada. Presa no limiar do sono e do despertar ela engole o choro e tenta encarar as frestas de luz que entram pela janela. Os pensamentos fogem, não consegue se reorganizar, lembra vagamente da silhueta negra sobre si, da voz professoral de um ser que não é homem, parecia ensinar algo para outro. Atordoada, Elise se arrasta para fora da cama, as pernas vacilam alquebradas, pois, em algum lugar, numa cova rasa e malfeita sua alma está soterrada, adubando seus próprios sonhos. O homem na penumbra não revela seu rosto, mas sua voz está em tudo, em cada movimento cósmico.
 
Larissa Prado
Enviado por Larissa Prado em 14/12/2016
Alterado em 14/12/2016
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