O absurdo
por Larissa Prado
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O Anúncio

Das coisas que vi, nenhuma ficou mais enraizada no fundo da minha memória do que a inexpressividade daqueles dois homens, os gêmeos Ignatov. Eram duas máscaras de mármore em rostos que deveriam ser humanos, e de que alguma forma maligna, não eram.

De tudo que precisei ver e filmar através da lente de uma câmera de mão, foi o homem nos bastidores que nunca mais saiu dos meus sonhos. Apesar de todo horror pelo qual passei e do qual consegui sair são para contar, hoje, nestas páginas em branco deste caderno. Reviver aqueles dias é remexer na ferida que não cicatriza. Podemos sair de certas situações com vida, mas jamais voltaremos a ser como antes. Não tem como colar cacos de um vaso depois que se quebram, sempre haverão rachaduras mesmo que tentem se tornar imperceptíveis. Talvez seja assim também com a alma humana frente à crueldades inconcebíveis envolta na aceitabilidade do rotineiro. Preferi acreditar que os homes que me contrataram não eram homens de verdade, mas bestas, algum tipo de aberração alada que se camufla atrás de pele, sorriso e olhos humanos.
 
I.

Meu nome é Teodoro, mas todos costumavam me chamar de Teo, eu tinha 19 anos, filho único e morava com minha mãe que sofria há anos de um grave – e raro – tipo de câncer que devorava parte deu seus pulmões de maneira assustadora. Quando ela foi diagnosticada eu tinha 18 anos, minha vida a partir de então se resumia em cuidar dela, tentar fazer as dores se tornarem menos lancinantes e os dias menos obscuros para nós dois. Éramos sós, nunca cheguei a conhecer meu pai, e isso não fazia diferença alguma. Nunca havia feito embora eu soubesse que se tivesse mais alguém para dividir o fardo da doença de mamãe seria mais confortável.

Os anos se passaram de uma maneira arrastada e estranha, todos os dias fazíamos as mesmas coisas por conta da rotina de medicamentos e tratamentos pelos quais ela deveria passar. Aquela situação toda estava se tornando cada dia mais lamentável. Você sabe, ama alguém e vê-la definhando daquela maneira é como se algo em nós mesmos estivesse desmoronando. Não conseguia imaginar um mundo onde não tivesse mais a companhia de mamãe mesmo sabendo que isso seria inevitável, a morte estava à espreita, era única certeza que tínhamos e ainda assim tentávamos lutar contra ela. Uma luta vã e exaustiva.

Até que em uma de nossas visitas ao doutor Adams, o oncologista de mamãe, ele mencionou um tratamento com substâncias que ainda estavam sendo testadas nos pacientes voluntários, eu pensei então, na verdade depositei todas minhas fichas nisso, que talvez pudesse dar certo para mamãe. Porém, o preço a ser pago por cada sessão de quimioterapia experimental era exorbitante! Diante os zeros que doutor Adams nos apresentou minhas esperanças se abalaram e se esfarelaram como dente-de-leão em uma ventania. Era difícil, não tínhamos muito, mamãe vivia de uma mixaria que o governo lhe pagava de afastamento por invalidez e eu, bem eu não trabalhava. Tinha feito pequenos serviços, nada sério, nada que pudesse pagar o que aquelas cifras sobre a mesa do doutor nos mostravam.

- Bem, vocês podem tentar com ajuda da prefeitura. Eles fizeram uma lista, é apenas se cadastrar no sistema, temos vagas para quem não pode pagar o valor total. –

Doutor Adams continuou falando sobre o programa que ofereciam para os pobres, mas claro que não nos pareceu garantido. Era complicado demais esperar numa longa fila no caso de mamãe, a doença estava progredindo rápido, o tempo era nosso pior inimigo. Eu falei para o doutor que daríamos um jeito de pagar pelas sessões e pelo tempo necessário de tratamento. Mamãe ficou calada, o lenço que cobria sua cabeça deixava-a com um aspecto quase celestial, como se fosse uma santa ou algo do tipo. Mas não era apenas pelo lenço, era sua aparência resignada e doentia de olhos encovados e pouca carne. Parecia um cadáver que ainda andava e falava, olhar para ele naqueles dias estava se tornando mais insuportável. Doutor Adams e sua equipe tinham introduzido uma espécie de cano na sua traqueia por onde conseguia respirar à noite, era um constante zunido de ar entrando e saindo. De tudo que haviam feito nela, aquilo era o que mais me deprimia, porque na juventude me lembrava de como seu pescoço era bonito e em como era bom deitar ali para ouvir histórias à noite. Tudo isso agora tinha acabado. Eu precisava apenas arranjar um jeito de pagar pela única chance que estava sendo apresentada a nós.

Ao voltarmos para casa, mamãe sentou ao meu lado no banco do táxi em completo silêncio, apenas o chiado desconfortável do cano em sua traqueia podia ser ouvido no interior do carro. O taxista se limitou a fazer a corrida e nada perguntar, as pessoas olhavam com piedade para mamãe na maioria das vezes, em outros casos, era apenas curiosidade e repugnância. Não sei ao certo o que as pessoas pensavam sobre ela, mas com certeza se sentiam aliviadas por não estarem em sua pele.

Naquela noite não houve conversa e mamãe estava indisposta até mesmo para tomar o caldo receitado pela nutricionista, uma mistura nojenta de vegetais e carne. Aprendi a preparar da melhor forma possível, e até tomava um pouco para encorajá-la, mas ela não quis, nem ao menos falar sobre o tratamento. Eu notava que mamãe estava cansando da luta, era visível seu declínio e também bastante compreensível. Ainda era eu quem deveria aguentar tudo, tinha saúde para isso e precisava resolver o problema do dinheiro. Devia haver uma saída, uma solução. Sempre haviam e sempre estavam escondidas quando mais precisávamos.
 
 
 
 
II.
 
Não sei ao certo quantos dias tinham passado desde a nossa consulta ao doutor Adams e sua notícia do tratamento experimental. Parecia que tinha passado uma semana, quando olhei no calendário para conferir já estávamos entrando no último mês do semestre, era Julho e chovia bastante. Tinha me distraído saindo à procura de empregos enquanto deixava minha mãe sob os cuidados da nossa carinhosa e prestativa vizinha que cuidava de um abrigo para gatos abandonados. As duas se davam bem e me tranquilizava deixar mamãe na presença de alguém da sua idade. Afinal, nós dias tínhamos menos assuntos em comum à medida que o tempo passava e a doença levava embora o pouco que restava da sua energia.

Nenhuma entrevista de emprego deu certo, por mais que me esforçasse e até tivesse comprado, sem poder, roupas novas. Eles falavam que me retornariam, ligariam e o telefone nunca tocava. Não sei o motivo de nunca terem me dado uma chance, nem como vigia de uma casa noturna. Não que eu tenha porte para tal coisa, mas não sou também tão incapacitado para o que o cargo pedia.

Na última tentativa, um emprego de entregador de pizza, duas coisas me impediram de conseguir a falta de carteira para moto e a pouca idade. Eu tinha 19 anos e sempre parecia pouco. Algumas vezes menti sobre muitas informações na tentativa de impressionar os entrevistadores, mas sempre que saía dos lugares notava que a sala de espera estava abarrotada de pessoas, potencialmente, mais interessantes do que eu. Era como se todos tivessem algo a oferecer, mas eu não encontrava nada com o que jogar. Estava mesmo de mãos abanando quando saí do último prédio, era uma entrevista para recepção de um hotel que também não deu certo.

Caminhei pelas ruas sentindo um peso estranho na nuca, uma sensação de tonteira e incapacidade. Não parecia conseguir respirar e o som que o cano na traqueia de mamãe fazia sempre voltava à minha memória quando me sentia assim oprimido pelo acúmulo de fracassos e tentativas falhas. Entrei em uma cafeteria de esquina, era um lugar limpo e arrumado, mas pequeno e modesto, nada muito sofisticado, onde me senti bem, consegui respirar de novo ao sentir o aroma de café fresco. Remexi os bolsos e tinha a quantia cravada para um café e um maço de cigarros, comprei e sentei numa mesa do lado de fora.

Fiquei observando as pessoas que caminhavam e os carros que passavam enquanto fumava e bebia meu café. Minha cabeça ficou vazia nessa distração momentânea e quase me esqueci por um momento o que de fato estava fazendo no centro da cidade, o porquê estava correndo atrás de um emprego e de dinheiro. Abençoados momentos de esquecimento, poderiam durar uma vida, apenas absorto nessa sensação vaga de que nada está acontecendo. Estava amassando a ponta do cigarro no cinzeiro da mesa quando um homem aproximou e perguntou se podia sentar ali comigo apenas por um segundo. Eu dei de ombros, não me incomodaria, olhei em volta e notei que as poucas mesas do lugar estavam cheias sem ter prestado atenção a isso.

O homem sentou e colocou um jornal dobrado sobre a mesa enquanto mexia em um tablete. Parecia muito entretido com o que devia fazer, permaneci na minha cadeira, apenas fitando as ruas até que ele levantasse e se fosse. Não demorou muito, deve ter apenas visto alguma informação, algo do tipo, e logo foi embora me agradecendo com um balançar de cabeça e um aceno. Fiquei entregue novamente à abstração, observando o homem se afastar e pude ver que trajava vestes sociais e tinha um ar apressado, atarantado de quem tenta resolver alguém. Eu também estava tentando resolver algo, mas a minha energia declinante não me perdia ser tão enérgico em resolver quanto aquele desconhecido demonstrava ser. Dei de ombros sem nenhum motivo e peguei outro cigarro, foi então que o jornal dele tinha sido esquecido ali sobre a mesa, amassado e dobrado.

Acendi o cigarro e na segunda tragada já me peguei dando uma checada no jornal. Abri na parte que ofereciam empregos nos Classificados e ali me demorei um tempo. Já tinha visto e revisto todos aqueles, cheguei a ir na metade das entrevistas. Nada parecia novo ali, até que um anúncio chamou minha atenção. Estava escondido no fim da seção de empregos, era muito simples e ao mesmo tempo chamativo:

 
Procura-se pessoas jovens,
não precisa experiência, para trabalhar em um projeto artístico.
Salário a combinar; vale-transporte e refeição inclusos.

Aquilo me pareceu como se posto ali para mim, exclusivamente, para que eu pegasse a vaga. Era muito bom para ser verdade, não exigiam experiência, minha pouca idade estava me afetando e também ofereciam vale-transporte, não tinha carteira de motorista, não podia ser melhor. Anotei o número no fim do anúncio e saí da lanchonete recarregado de novas energias e esperanças.
 
 
III.

Não contei para mamãe sobre a vaga, iria fazê-lo apenas se desse certo. Na noite que encontrei o anúncio ela comeu bem seu caldo noturno, e isso me animou mais. Estava inquieto, não via a hora do dia amanhecer e poder marcar uma entrevista. A noite foi longa por conta da minha espera. Não consegui dormir, rolei na cama, fumei mais alguns cigarros até que os primeiros raios de sol despontaram no céu. Esperei, esperei e esperei dar 8 horas da manhã para ligar, não me aguentava de ansiedade. Até que coloquei o número no celular e chamei. Tocou uma, duas, três vezes até cair. Meu estado de espírito foi se acalmando e antes de tentar novamente achei que aquilo poderia ser bom demais para ser verdade. Ou não atenderiam, ou aquilo devia ser o tipo de trabalho muito exaustivo, como revendedor externo, algo do tipo.

A respiração chiada de mamãe que ecoava pela casa vinda do quarto dela me fez afastar esse pensamento sobre empregos cansativos, eu precisava fazer aquilo, por ela. A última tentativa. Esperei até às 9:30 h e liguei novamente, finalmente, uma voz atendeu. Era alguém muito educada e gentil, ela marcou uma entrevista na parte da tarde e me enviou a localização rapidamente no celular. Agora a espera seria até às 14h e aquela tortura estava acabando com meus nervos. Avaliei o endereço por quatro vezes, ficava longe, não conhecia a região, por isso, procurei saber todas as linhas que passavam ali. Não queria correr o risco de me atrasar. Estava tão empolgado que tive que contar para mamãe sobre aquela nova tentativa.  Ela pareceu incerta, disse que era para eu tomar cuidado e todo tipo de coisa que as mães falam por preocupação. Prometi a ela que daquela vez daria certo, era bom ver seus olhos lacrimejantes de emoção boa, não de tristeza apenas. Ela me disse que iria ficar torcendo e que, de fato, podíamos mesmo conseguir. Ela me abraçou, senti a chiado forte do seu peito e não sabia que seria a última vez que aquilo aconteceria.

Se soubéssemos metade das coisas antes que elas aconteçam, antes que possamos prosseguir nos caminhos errados, quanto sofrimento não evitaríamos? Por outro lado, aprendi que sofrer nem sempre é um mau negócio, há certa nobreza nisso de ir ao inferno e voltar com vida, você prova a si mesmo que pode vencer alguma coisa que poucos conseguiriam. Hoje, tento manter esta perspectiva como forma de me ajudar a não definhar por completo.

Eu apareci na entrevista. Não foi tão difícil encontrar, peguei o metrô e rodei por quase 1:30 até o lugar indicado, ao descer na estação precisei pegar um táxi e me locomover por mais 2 horas em uma estrada batida. Era muito longe do centro da cidade, da minha casa e de onde costumava frequentar. Porém, eu tinha comparecido.

A construção era uma casa antiga, grande. Não sei precisar ao certo que estilo era, parecia um imenso sobrado com dois andares. Por fora, tinha uma pintura conservada, toda branca e reluzente. Ao redor tinha um bosque e um lago. Era um lugar muito bonito, notei a presença de dois carros estacionados na garagem ao lado. Tudo ali era normal, apesar de estar tão distante. Não sabia o que eu faria, o que falar e esperar da entrevista, estava nervoso, mas pelo menos poderia ser eu mesmo. Não tinha nada inventado na cabeça para a ocasião como nas últimas tentativas. Isso me deixou mais relaxado enquanto esperava que atendessem a campainha.

Precisei tocar por três vezes, os únicos sons que eu podia ouvir eram pássaros cantando e o barulho da brisa nas árvores. Notei que haviam muitas câmeras de segurança espalhadas pelo lado de fora, na casa toda praticamente, uma inclusive acima do interfone que deveria estar focando bem meu rosto inquieto. A princípio nada parecia incoerente, morar ali exigiria mesmo uma vigilância maior. Era o meio do nada. O interfone fez um ruído e a voz feminina que saiu era a mesma que tinha me atendido.

- Senhor Teodoro! Aguarde um minuto.- a estática do interfone sumiu e ouvi a porta ser aberta por dentro como se fosse trancada de forma elétrica.

Não forcei para entrar, esperei como foi indicado até escutar o ruído de passos, para ser mais específico, eram saltos. A porta abriu e atrás dela tinha uma mulher muito bonita e loira, parecia que tinha saído de um filme de espionagem ou algo do tipo. O cabelo estava preso em um coque e ela usava um óculos de grau. Fiquei confortável, parecia ser gentil.

- Teodoro, me acompanhe por favor, vou apenas conduzir algumas perguntas e poderá iniciar seu teste. – caminhava à minha frente indicando por onde ir.

Eu prestei atenção no trajeto da casa por ser algo tão luxuoso e brindar os olhos. Nunca tinha estado em um ambiente tão rico e charmoso. Tinham animais empalhados nas paredes da sala de entrada com uma lareira enorme. Atravessamos muitos cômodos, pareciam ter mais de quatro salas ali, cada um em tema diferente. Na verdade, para ser honesto, parecia que eu estava entrando em um set de filmagem. Ela me levou até o fim de um longo corredor cheio de portas trancadas no segundo piso, lá era uma sala grande e ampla. Eu observei um bar no canto e um piano de cauda longa preto em frente. Sofás de couro preto e uma mesa de escritório com cadeira confortável onde ela se sentou.

- Pode se acomodar, Teodoro. – ela disse e sentou atrás da mesa. – Eu me chamo Carmen, vou conduzir a entrevista e depois de liberado te entregarei aos meus assistentes. Você irá iniciar um período de teste conosco que irá durar 7 dias exatos a contar desta tarde. Seus pertences vão ser acomodados em seu quarto, você terá direito a uma ligação por dia para casa, serão servidas as refeições em horários específicos e inalterados. Na sua acomodação terá suíte, TV, frigobar e poderá ver se está a seu gosto quando formos lá. Enquanto estiver passando pelo teste não será permitido o uso de celular ou qualquer tipo de aparelho que contenha acesso à internet. Seus aparelhos ficaram sob nossos cuidados. Alguma dúvida, podemos iniciar as perguntas? –

Eu me senti um pouco atordoado, não esperava a rapidez daquilo tudo, ficar ali acomodado por 7 dias, mas resolvi topar, parecia ser uma oportunidade boa. Eu economizarei com condução e com as refeições e ainda estaria bem instalado.

- Só queria saber que tipo de serviço será exigido de mim, veja, Carmen, eu não tenho experiência profissional boa. – coloquei uma pasta sobre a mesa para que ela pudesse ver meu currículo, mas ela ignorou, me olhando sorridente – Então, eu não sei direito o que vou ter fazer aqui. –

- Não se preocupe, Teodoro  - ela me deu a pasta para guardar sem ao menos checar o conteúdo – Você sabe filmar? Segurar uma câmera de mão, digital, e apenas apertar para filmar e pausar nas horas certas?-

Eu balancei a cabeça, confirmando.
- Então, será basicamente isso. – o sorriso dela ficou ainda maior e o meu também,
 

 
IV.
 
O que sucedeu a seguir foi que passei os 7 dias de teste na minha acomodação confortável, podia comer o que me ofereciam ali no frigobar além de solicitar o que quisesse consumir em um telefone que ficava na cabeceira. A princípio parecia um tipo de férias em um resort de campo. Tudo era de muito bom gosto ali. No primeiro dia, após a entrevista, conheci os assistentes que Carmen comentou, na verdade eles eram os cabeças daquilo tudo. Eram irmãos gêmeos e excêntricos. Não sabia direito a origem delas, pareciam falar russo entre si e tinham mesmo fisionomias peculiares, nunca tinha conhecido pessoas como eles. Marcell e Evertt eram idênticos e diferentes ao mesmo tempo. Marcell era moreno e Evertt descoloria os cabelos, essa era a diferença básica para que a gente pudesse diferenciar, mas Marcell sempre parecia ser mais cordial e simpático. Evertt era um homem meio eufórico demais e explosivo, trajava sempre ternos muito chamativos, roxos, vermelhos, listrados e sempre usava um ray-ban diferente a cada dia. Eu achei-os divertidos no início, até tudo começar.

Almoçamos juntos, os gêmeos me explicavam sobre a indústria do entretenimento de onde eles vinham e sobre a experiência profissional deles no ramo do cinema independente. Eu prestava atenção como podia, mas não podia opinar muito, apenas fiquei ouvindo e ansioso para começar logo a trabalhar, poder receber logo o cheque dos dias de teste e enviá-lo para mamãe. Tinha feito uma ligação para casa no primeiro dia e a tranquilizei sobre tudo, mas ela pareceu um pouco cansada e incerta sobre o trabalho. Tentei fazer o possível para que mamãe pudesse entender que era o melhor que tinha a fazer.

Sei que o primeiro dia foi apenas de conversação, Marcell me levou para conhecer o restante da propriedade que compreendia bem mais extensão do que achei que via. Eles possuíam até uma lancha na casa de barcos onde filmavam no meio do lago algumas vezes. Estava me encantando com tudo aquilo, porém, nem Marcell nem Evertt tinham ainda me contado que tipo de filmes faziam ali. Imaginei que fosse algo muito bucólico, algum tipo de documentário com imagens de paisagens, porque toda paisagem do lugar despertava mesmo senso artístico até em quem não era voltado para a coisa como eu.

Eles não me falaram sobre nada de gênero dos filmes, todas conversas eram um pouco enigmáticas quando olho e observo hoje. Eu, tampouco, me importava em ficar especulando muito. No segundo dia, eles me deram a câmera de mão que, segundo eles, deveria ser tratada com toda gentileza que uma dama merece. Daquele em diante eles me pediram para que ela fosse meus olhos e que eu jamais, em hipótese alguma, deixasse de filmar. Só poderia parar quando Evertt dissesse para parar, nesse ponto eu entendi que quem iria conduzir as filmagens era o irmão mais excêntrico e espalhafatoso. Tinha me entendido melhor com Marcell, acho que pelo seu jeito calmo e centrado, ficar na presença de Evertt sempre me deixava um pouco nervoso e inseguro. Ele era o tipo de homem que só falava aos berros, era um tanto opressora a sua euforia.

As filmagens começaram mesmo apenas no terceiro dia quando chegou um estranho furgão cinza e parou na porta de entrada do casarão. Bem, meu quarto ficava numa casinha ao fundo da grande casa, onde tinham outros quartos também, era uma espécie de casa do vigia, algo assim. Eu bisbilhotei pela janela e notei que do furgão desceram algumas pessoas, daquela distância não notei que a maioria estava com um saco na cabeça e de mãos atadas. Tudo pareceu muito borrado dali e eu mesmo não quis prestar atenção à estranheza da situação.

À noite, Evertt bateu na minha porta e me convocou para a primeira filmagem. Eu peguei a câmera de mão, como me orientaram ela sempre ficava ao meu lado na cabeceira da cama, e sai atrás dele. Ele ia me falando, gesticulando bastante, como deveriam ser as tomadas, cada cena de tensão tinha que ser focada no rosto dos protagonistas. Que teríamos um verdadeiro espetáculo aquela noite, e toda essa euforia dele acabou me despertando um pouco de medo. Não sabia ao certo o que estava me assustando, mas Evertt tinha um brilho estranho nos olhos naquela noite, algo sádico e secreto, algo que beirava à insanidade ou possessão.

Entramos em um dos quartos do longo corredor pelo qual entrei na primeira vez. O quarto era muito grande, praticamente do tamanho da casa da minha mãe. Fiquei ali parado com a câmera na mão direita, observando. A única iluminação do lugar vinha de dois abajures que ficavam ao lado da cama de dossel. Sobre ela tinha uma mulher deitada, seminua e vendada. Só notei mesmo sua presença porque ela soltou um gemido baixo. Estava muito escuro. Evertt estava conversando com alguém que estava na suíte do quarto, eu ouvi claramente as vozes masculinas meio descontraídas e não conseguia tirar os olhos da mulher sobre a cama, ela parecia muito atordoada.

Quando Evertt veio com um homem musculoso e completamente nu eu comecei a entender as coisas na dimensão exata de onde tinha me metido.
- Isso é tipo, filme pornô?- eu perguntei.

Evertt deu um sorriso e bateu no meu ombro como se fossêmos grandes amigos, isso era o que mais me deixava desconfortável com ele.

- Filme pornô? – e deu uma risada muito debochada – Que mundo você vive, Teodoro? Está muito além do que entende por pornô, meu rapaz. Agora, ligue a câmera e só pare quando eu disse, ok?- e me deu dois tapas nas costas enquanto afastava para sentar numa poltrona ali na escuridão do quarto. Dei de ombros, liguei a câmera e comecei a filmar.

No início fiquei parado sem saber direito o que fazer, se devia me aproximar, como deveria ser. Estava muito intrigado com o rumo que as coisas começaram a tomar em pouco tempo. Evertt levantou irritado e veio me circular, murmurando nos meus ouvidos como deveria ser, ele parecia estar gostando daquilo que assistia, mas eu não estava gostando nenhum pouco.

Tudo começou como acontece mesmo em filmes baratos de pornografia, o cara estava ali adulando a mulher vendada que se contorcia em prazer orgástico, apesar de me sentir um pouco constrangido ainda conseguia me locomover ao redor da cama e focar onde Evertt ficava dizendo, mas as coisas simplesmente saíram do controle quando eu notei o fio vermelho escorrer através do nariz da atriz enquanto ela engolia à força o pau do cara. Vocês não sabem o que foi ver aquilo ali, sangue vivo mesmo. Eu quase soltei a câmera, me senti fraco, nunca fui forte ao ver sangue vivo, mas Evertt praticamente gritou em meu ouvido para continuar filmando tudo até ele dizer que era o fim. Eu continuei filmando e registrando aquilo na minha memória de forma involuntária. Não sei o que estava acontecendo com a garota, se ela estava tendo algum tipo de overdose, o fato é que desde o início notei que ela não estava em si, parecia um tipo de boneca de pano manobrada pelo cara. Ele forçou o pau tão fundo na garganta dela que eu pude escutar algo estalando lá dentro, depois fui perceber que era o maxilar dela que tinha deslocado e os olhos brancos revirados não eram de prazer mais e sim por dor extrema.

- Evertt... – eu virei o rosto da cena e tentei acha-lo. Ele simplesmente tinha sumido do quarto. – Hey.. – tentei falar com o cara que estava manobrando a mulher – Cara, tem algo errado nisso aí... ela está com muita dor, e tem...sangue. – ele levantou o dedo do meio para mim enquanto ainda estava sufocando-a com o caralho. Eu notei que o corpo da garota estava mole, desmaiado ou algo do tipo, mas ele continuou lá em cima dela e fazendo tudo o que possam imaginar em todos orifícios daquele corpo inanimado e pálido.

Evertt entrou pela porta, pude ver uma fresta de luz entrar no quarto e me virei para ele, não me importando nenhum pouco se a câmera estava filmando ou não.

- Eu não vou filmar mais nada. – me sentia trêmulo e assustado quando virei para Evertt, toda minha coragem tinha me abandonado. Ele apenas me olhou, estava fumando um cigarro e fitava a cama que rangia mais e mais enquanto o cara grande e musculoso se resfolegava no sangue da mulher com o maxilar deslocado e arreganhado.

- Evertt... – dei as costas para a cama de dossel – Por favor, eu não sabia o tipo de coisa que fariam aqui e isso me parece muito errado. Ela nem está respirando e porra, tem sangue em todo lugar. – eu me sentia tão gelado, minha mão tremia tentando segurar a câmera. Evertt tinha parado de sorrir e me encarava com olhos de puro ódio e desprezo.

- Volte para seu quarto, Teodoro. Amanhã conversaremos sobre esse fiasco de filmagem. – e me mandou embora com um aceno. Eu sai do quarto às pressas, nem notei que a câmera pendia ainda gravando em minha mão.
Naquela noite eu não dormi, e só dormiria nas próximas à base de soníferos fortes que pedia para Carmen através do telefone. Fiquei revendo a filmagem na câmera, indo e vindo do ponto onde a garota tinha começado a sangrar pelo nariz e percebi, assombrado, que ela estava morrendo e que eu havia registrado isso. É o tipo de imagem que não saiu da minha cabeça nunca mais e era apenas o começo de toda experiência infernal.


 
V.
 
- Temos um acordo aqui, Teodoro. – a voz de Marcell era muito calma e controlada – Você assinou o termo para permanecer aqui nestes 7 dias como nosso câmera. Não posso entender o que deu errado na noite passada, mas não confio no relato de Evertt que sempre tende a exagerar no drama. O que de fato está te incomodando no que está fazendo? Meu Deus, apenas segure a porra da câmera! – era primeira vez que ouvia Marcell xingar, aquilo foi estranho e me assustou mais ainda.

A forma como lidavam com a normalidade da situação passou a me constranger. Será que eu estava exagerando demais? Tudo aquilo estava certo? Dei de ombros me sentindo fracassado e muito cansado.

- Eu sei do acordo e tudo mais, Marcell, mas é que não sabia o tipo de filme que vocês costumavam fazer. Não é que eu não concorde ou algo do tipo, mas aquela garota ontem da cena, ela simplesmente sangrou até desmaiar (não quis aceitar que ela tinha sangrado até a morte, aquilo ainda me incomodava demais), e tudo acabou...acontecendo de um jeito que eu não esperava. Não sei se consigo continuar nisso – tinha um copo de água servido para nós, eu bebi tudo em um gole, mas a garganta continuou seca.

- Meu rapaz, - Marcell olhou adiante para o lago estagnado que ficava nos fundos da casa, ali na varanda tínhamos uma boa vista de tudo, a despeito da situação o ambiente era maravilhoso. – Existem muitas coisas que não gostamos de fazer, mas precisamos. Fazemos o que fazemos porque há pessoas que gostam disso e precisam disso, eu ofereço o prazer e a diversão á pessoas realmente importantes. Pessoas que você não gostaria de lidar ou não saberia lidar. Você é uma peça muito pequena no meio disso tudo, Teodoro, então, eu te aconselharia a suportar os próximos dias fazendo o que veio fazer e se limitando a isso. Sem questionar, e muito menos sem atrapalhar. Rapaz, meu único interesse aqui é fazer um bom trabalho. – ele dei um gole na sua água gelada com limões boiando e continuou olhando para a vastidão da propriedade.

Não tinha como discordar de Marcell, eu estava ali e fui por vontade própria, aceitei fazer aquilo, mas tudo agora tinha um gosto amargo de arrependimento e desespero. Apenas fitei o homem ao meu lado por um tempo e fiquei calado.

Naquela noite houve outra filmagem, foi bem mais estressante do que a primeira. Evertt bateu em minha porta de novo e me solicitou, caminhamos um ao lado do outro, calados. Ele não estava com seu habitual bom humor, e eu me sentia muito deprimido, parecia que estava ficando doente. Entramos pelo bosque e tinha ali alguns instrumentos de iluminação noturna. Eu fiquei parado segurando a câmera junto ao peito e observando. Evertt conduzia toda situação, ele estava posicionando duas garotas ali, ambas algemadas uma na hora e com os olhos meio perdidos. Eu pude notar que assim como a primeira garota que sangrou até morrer aquelas também pareciam dopadas, fora de si, murmuravam coisas sem sentido. Tudo aquilo era muito errado, mas permaneci quieto.
Evertt parecia um pouco irritado, uma delas estava dando trabalho, parecia tentar sair das algemas.

- Teodoro, já volto, fique de olho nelas. – e me deixou ali sozinho com as duas garotas delirantes.

Eu tentei me manter quieto, fiquei apenas olhando até que a garota mais arredia me olhou diretamente e murmurou “Por favor, me ajuda...” eu olhei dentro dos olhos dela e decidi que teria que fazer algo. Aproximei, um tanto incerto, olhando tudo em volta.

- Eu não posso te ajudar. – falei quando já estava na frente dela – Eu só estou aqui pra filmar. Você está passando mal? – evitei tocar na garota, apenas fitei seu rosto, ela estava muito pálida e tinha olhos inchados de chorar.

- Nem sei onde estou... – ela tentava dizer enrolando a língua, não parecia saber falar direito nosso idioma – Eu nem sei onde estou... – ela balançava a cabeça choramingando. Meu coração ficou muito comovido por aquilo, olhei para a outra que estava algemada com ele, mas ela ficava apenas tremendo e abraçada ao próprio corpo.

- Me desculpa. – eu disse e me afastei, virei de costas para as duas e tentei ignorar o choro baixo da garota que tinha tentado falar comigo. Evertt voltou trazendo pelas rédeas dois garanhões bonitos, de raça. Não conheço nada de animais de fazenda, mas aqueles dois pareciam ser do tipo caros, como de revista algo do tipo. Ele posicionou os animais de tal forma atrás das garotas que dava pra ver os membros deles encostando nas costas delas. Eu sabia o que estava porvir, apenas alguém muito ingênuo ou otário para não perceber como seria a noite. E foi a pior possível.

Levantei a mão com a câmera e passei a ver as cenas só através da pequena tela, era mais fácil assim, consegui me abstrair do que acontecia ao redor e fiquei apenas olhando as imagens feitas na máquina. Evertt voltou com seu humor efusivo, ele ficou me rodeando e falando sobre os ângulos, sempre empolgado e vibrante. Eu foquei no rosto da garota que chorava e pedia por ajuda, ela parecia estar cada vez mais azul, vi um fio de sangue vivo escorrer por seu nariz e por um momento quase soltei a câmera. Os animais estavam excitados de uma forma diferente do natural, pareciam atiçados de olhos vidrados, eles montavam nas pobres garotas soltando relinchos demoníacos. Para mim aquilo era o mais próximo do inferno que eu podia chegar, e tudo que me limitava a fazer era continuar filmando e sentindo o estômago rodopiar na barriga.

De repente, os aromas ficaram fortes demais, notei a gosma branca e muito rançosa que os animais soltavam nas costas das garotas. Uma delas estava caída, a que buscou minha ajuda, eu notei que sangue vivo também escorria de suas pernas, entre as nádegas. Os olhos dela estavam abertos e sem vida. Deduzi que estava morta, a outra ainda abraçava o corpo e tremia em convulsões.

- Pode parar de filmar, Teodoro, acho que pegou o espírito da coisa! – Evertt me deu um tapa de cumprimento no ombro e foi arrumar a situação da cena. Ele mal olhou para as duas garotas, pegou primeiro os animais pelas rédeas que pareciam tão atordoados quanto meu cérebro estava.

Não liguei mais para casa no terceiro dia, e passei a ficar um pouco viciado nos remédios para dormir que Carmen me enviava. Eles pelo menos me deixavam em um torpor apático. Estava sentado no meu quarto numa tarde, quando Marcell veio me ver e dizer que tinha enviado o cheque dos primeiros dias para o endereço que eu tinha deixado na ficha. Aquilo me fez melhor, mamãe já devia ter recebido àquela altura, isso mostrava que eu estava tendo algum retorno apesar de tudo. Antes de deixar o quarto, Marcell me olhou com atenção e ficou parado perto da cama. Eu estava com o braço cobrindo os olhos, tentando combater uma terrível dor de cabeça.

- Espero que esteja se habituando mais ao que precisa fazer, Teodoro. Bem, Carmen me contou sobre a situação da sua mãe, é bom pensar que tudo vale a pena para vê-la ficar bem, certo?- ele falava baixo, quase como um amigo mesmo.

- Ah, Marcell, sim, claro. Eu só quero terminar logo o teste e voltar pra casa... – eu disse, muito exausto.

- Você não pretende ficar conosco? Temos filmagens marcadas fora do país, locações de primeira, coisa grande. Você vai poder tirar muita grana disso se continuar conosco. – eu olhei para ele, não acreditei que ele estava simplesmente me oferecendo aquilo.

- Marcell... – sentei na cama lutando contra a tontura e fraqueza – Eu já vi o suficiente aqui, não concordo com o que fazem mas não posso dizer nada, certo? Não entendo como podem achar normal todas essas garotas mortas, essas situações bizarras, entende? Isso está me ... – Marcell me interrompeu levantando a mão.

- Te surtando, certo? – ele abriu um sorriso compreensivo. – Eu entendo, mas a gente habitua-se a tudo, Teodoro até ao que pareça ser mais bizarro. Já ouviu sobre as peripécias sexuais de Calígula no Império Romano? Uma verdadeira loucura, não? Mas totalmente aceitável para época, algo corriqueiro e comum. A gente se habitua a tudo, pode acreditar, principalmente quando a necessidade fala mais alto. Leve isso tudo apenas como uma nova experiência, não fique tão impressionado com o que sua câmera registra, rapaz. – dizendo isso Marcell saiu pela porta e eu fiquei sentado me sentindo mais perdido e assombrado.

Eu comecei a pensar que os gêmeos não eram seres humanos. Estava entrando em parafuso, imaginando demônios onde existiam homens de carne e osso e mentes deturpadas.
 
VI.
 
Nos últimos dias de filmagem não preciso dizer que tudo desandou de vez. As cenas que precisei filmar, de maneira mais frenética pois aconteciam em todos turnos, me desconcertaram de uma maneira definitiva. Em uma delas, a que mais me marcou, o garoto foi, literalmente, empalado vivo por um homem trajando máscara e rabo de cavalo, enfiado em uma roupa de couro sintético. Evertt parecia cada vez mais extasiado, cada cena filmada era motivo para um brinde com champanhe, whiskey ou vinho. Eu era obrigado a acompanha-lo nos brindes, levantar a taça e beber tudo. Com Evertt tudo precisava ser feito do seu jeito. Aconteceram mortes, sempre haviam no fim de cada take. Eu já estava muito familiarizado com a forma que os olhos perdiam o foco e a vida e com as centenas de fios de sangue vivo saindo por aqui e por ali dos corpos nos pequenos filmes.

As coisas começavam a parecer triviais e corriqueiras de uma maneira macabra. Não sei ao certo se era o efeito dos meus remédios para dormir, mas nas últimas cenas eu apenas segurava a câmera sem estar presente em meu corpo, era apenas guiado pelos rugidos eufóricos de Evertt atrás de mim. Os murmúrios das garotas não me chamavam atenção, algumas vezes ajudei Evertt a ajeitar uma cena ou outra, amarrando pés e mãos ou apenas colocando vendas e capuzes. Aquilo tudo estava levando pouco a pouco algo de mim e já não me lembrava o motivo principal que tinha me guiado até lá.

Foi no último dia de filmagem que Marcell aproximou de mim, eu estava sentado na varanda do meu quarto, gostava dali, a brisa sempre batia naquela horário e trazia cheiro das flores do campo.

- Sinto muito, Teodoro. – Marcell disse ao escorar na varanda ao meu lado.

- Como?- levantei os olhos para ele, estava perdido em pensamentos inomináveis.

- Sobre sua mãe, sinto muito pela perda. Precisando de algo, é só dizer. – ele ia saindo quando eu voltei a mim.

- Minha mãe? O que houve? Do que está falando?- lembrei que fazia muito tempo que não falava com mamãe, só no telefonema animado do segundo dia e já tinham se passado 5.

- Carmen não te informou da morte da sua mãe? Ela me disse que tinha te ligado ontem à noite e dito. Vim apenas checar como estava, eu vou pegar um voo agora, mas precisando de algo deixe com Carmen- e afastou da varanda.

Fiquei pensando sobre a noite passada e no telefonema de Carmen, tudo parecia confuso demais, ela de fato me ligara à noite e tudo que lembrava era de pedir mais dos remédios para dormir. Carmen falou algo como “Sinto tanto, Teodoro” mas agora tudo parecia enfumaçado em minha mente, era como ter um filme de câmera atrapalhado no lugar do cérebro. Todas as cenas que precisei captar, todas dores e toda crueldade, aquilo estava mexendo com minha cabeça.

Na última filmagem Evertt prometeu que seria intenso. Aquilo teria me assustado nos primeiros dias, mas apenas meneei a cabeça concordando com tudo que ele me dizia. A coisa toda aconteceu no primeiro quarto que filmei. Era uma espécie de ritual, a garota estava sentada no chão, nua e dessa vez bastante excitada de uma maneira animalesca, presa à uma coleira que um homem muito grande segurava. Ele tinha um chapéu com chifres e seu próprio semblante parecia de um búfalo. Fiquei parado observando aquilo, o cheiro e velas queimando infiltrava em meu nariz e vi o rosto de Evertt, branco e sorridente, surgir muito próximo de mim.

- Vá lá. – ele me empurrou pelo ombro, cheio de sorriso com dentes – Você agora vai nos dar o ângulo em primeira pessoa do êxtase! – ele soltou uma risada triunfante.

- Como assim?- eu me vi entre a mulher encoleirada e o grande homem de chifres, a câmera pendia em minha mão e não sabia o que fazer. – O que está dizendo? –

Evertt girou o dedo no ar e apenas disse.
- Comece a filmar, Teodoro – e sentou na penumbra, em sua poltrona de espectador e diretor.

Não sei como as coisas aconteceram então, elas apenas foram seguindo. A mulher tinha agarrado minhas calças e puxado para baixo, não tinha como reagir porque eu estava filmando, era algo automático ao ouvir a voz de Evertt gritando para começar. Ela engoliu meu pau com muita violência e até senti uma dor grande no abdômen, tentei afastar, sair dali, mas o homem de chifres me mantinha preso entre ele e a mulher, eu podia sentir seu pau roçando minha bunda e a sensação foi a mais repugnante possível, só sentia vontade de vomitar e gritar.

Evertt ficou ali assistindo a cena e se deliciando. Não sei como eu havia me tornado aquele que filmava e um dos participantes da cena, como acontece agora ao contar tudo: um narrador-personagem. Não queria estar lá, mas estava. Não queria estar fazendo e prosseguia fazendo. Não havia qualquer tipo de emoção durante a cena, eu fui levado, a única coisa que conseguia ver eram os olhos faiscantes de Evertt na penumbra do quarto, como olhos de Satã mesmo. Eu comecei a crer que tudo aquilo pertencia sim a uma dimensão perdida entre céu e inferno, o próprio limbo ou algo do tipo.

- Pode cortar! – a voz de Evertt ecoou pelo quarto e ele veio quase saltitando até nós. Nas minhas mãos a cabeça da mulher estava pendida, a câmera filmava seus olhos muito próximos, e pude ver os familiares fios de sangue escorrer em torrentes pelo nariz e cantos da boca. Eu me afastei aos poucos, tropeçando as calças que estavam ao redor dos meus calcanhares, a primeira dor que me assaltou foi bem nas costas, entrando pela bunda. Eu senti o familiar fio de sangue vivo descer pelas minhas coxas e pensei “Puta que pariu, aquele merda me comeu!” olhando para o cara dos chifres que estava segurando o pau decepado na mão.

O que quero dizer é que tinha um gosto estranho na minha boca quando deixei o quarto, era gosto de sangue. Eu tinha parte do pau do cara entre os dentes, como isso foi acontecer? Não posso explicar. Deixei o quarto correndo, agarrado à câmera como se ela fosse me ajudar em algo. Entrei pela minha acomodação e soltei a câmera sobre a cama. Só ali dentro puxei as calças para cima e tentei reorganizar os pensamentos. Havia sim algo dentro de mim, uma força, um pensamento que não era meu, parecia ser os próprios pensamentos da cabeça de Evertt. Algo inexplicável. Andei em círculos tentando quebrar coisas no ar que não existiam, tentando arrancar minha cabeça dos ombros. O gosto de sangue e porra infectava tanto minha boca que corri para o banheiro e coloquei tudo que achei goela abaixo, inclusive um litro de álcool, desceu ardendo mas aliviou bastante.

Vomitei tudo na privada e depois de me recompor um pouco sentei na cama, o velho torpor me oprimindo os nervos. Fiquei sentado ali até os primeiros raios de sol entrarem pelo quarto e com eles a figura de Evertt.

- Ontem você foi incrível, Teodoro. – ele deu uma olhada para fora da janela que estava arreganhada e procurou a câmera. – Me dê a câmera, chegamos ao fim desses dias de teste. Aqui está. – ele estendeu um cheque, mas eu apenas fitei sem interesse. Evertt deixou o papel na cabeceira e pegou a câmera. – Obrigado pelo seu tempo e dedicação, Teodoro, foi o melhor cameraman que já achamos. – ele deu uma piscadela e deixou o quarto.

O que fiz em seguida foi pegar minha mochila e ligar para Carmen, ela disse que estava me aguardando na sala de entrevista. Fui até lá, estava já habituado com as acomodações, mesmo que só andasse ali na presença de Evertt ou Marcell. Eu peguei minhas coisas com ela, inclusive o celular já descarregado. Ela me olhou por um tempo, parecia um pouco constrangida ou algo do tipo.

- Está tudo bem, Teodoro? Bem, não preciso reafirmar que tudo que viu aqui é confidencial, certo? Temos seu endereço e mesmo que se mude, todos seus dados estão gravados aqui, nós podemos te achar onde for e pode ser que precisemos de você novamente. – Carmen era uma mulher bonita e tinha um sorriso atraente, mas eu estava começando a odiá-la.
- Tudo bem. Eu preciso voltar pra casa... – foi tudo que me limitei a dizer.
- Um táxi vai vir pegá-lo daqui 15 minutos. – ela sorriu e me acompanhou até a porta.
Fiquei parado em frente à grande propriedade, tinha o corpo todo dolorido e a mente em frangalhos. Olhei para além da casa, onde dava para ver o telhado da casa que passeis os 7 dias, senti que alguma coisa minha estava para sempre lá dentro trancafiada, uma parte muito importante.

O táxi buzinou, não tinha notado que os minutos já tinham passado, minha noção de tempo também não recuperou mais. Entrei e voltei para casa, mas não tinha mais mamãe, apenas eu. Fiquei rememorando os 7 dias com frequência dilacerante, ainda podia ouvir gemidos e ruídos durante as noites. Senti até nostalgia de todo sofrimento pelo qual passei.

 
VII.

Nunca mais ouvi falar dos irmãos Ignatov, Marcell e Evertt, muito menos no que faziam dentro do que costumavam dizer “indústria do entretenimento para adultos.”  É como se nunca tivessem existido, talvez apenas existam nos recônditos de minha memória fragmentada. Depois de tantos anos, ainda me pego passando pela porta da propriedade em que fiquei os 7 dias, hoje funciona um abrigo para pessoas idosas. Nunca tive coragem de bater e pedir para entrar, não sei ao certo o motivo de continuar passando por lá às vezes, talvez para reencontrar parte importante de mim mesmo que foi perdida. A verdade é que não sei até que ponto tudo o que vi naqueles dias mexeu comigo a ponto de levar boa parte da sanidade, mas o fato é que tudo aquilo me pareceu algo fantasioso de outro tipo de dimensão maligna. Pelo menos, é o que tento pensar como justificativa para tanta crueldade e estranheza presente em alguns tipos humanos.
 
 
Larissa Prado
Enviado por Larissa Prado em 09/12/2016
Alterado em 10/12/2016
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