O absurdo
por Larissa Prado
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O amor é uma névoa
 
*um conto como forma de homenagem*

eu digo que
daria tanta coisa
para poder voltar
no tempo
que no fim
só teria o próprio 
motivo.

 e sem saber o que
fazer
com ele.
(talvez um seja o suficiente - Cleber Junior)


 

Sentado na última fileira do teatro revendo a encenação de "Megera Domada", sinto que não virão risos aos lábios dessa vez. A peça é amadora, os atores e atrizes são patomimas de personagens irreais, inverossimeis. A minha melancolia não me permite relaxar, sinto os músculos dos ombros tensos e estou prestes a desabar. 

Não sei se Luis vai estar em casa quando ligar, ele já não atende minhas chamadas mesmo que houvesse um tempo em que me dizia "Eu sempre vou estar lá se você precisar". Na época eu sabia ser uma grande mentira, uma farsa tão mal forjada quanto a peça que vejo pela terceira vez à minha frente, mas a parte estúpida de mim fez questão de acreditar. Por um momento cheguei a acreditar que era verdade: os sentimentos de Luis pareciam tão concretos que era difícil não crer, não me julguem por ter sido um tolo. Sempre me orgulhei do meu discernimento em relacionamentos, nunca doei mais do que achei necessário, mas sempre haverá um Luis na vida de todos. Alguém que muda o jogo, o coringa do baralho.

Levanto e sigo para casa antes do ato final. Não espero o ônibus porque quero seguir caminhando e sentindo a brisa da madrugada. Quando declarei meu amor por Luis abri mão da minha família e amigos, a maioria se afastou por conta dessa minha revelação inesperada. As pessoas não gostam de surpreender por mais que reclamem da monotonia de suas existências. Pensar em tudo que perdi por causa dele ainda me incomoda um pouco, foi como ter dado o controle da vida nas mãos desse descendente de espanhóis com suas histórias fantásticas.

O magnetismo dele estava no fato de ser tão ingênuo em relação à realidade, inventar um universo onírico onde nós dois podíamos tudo e onde toda chacota alheia se convertia em risos no fim do dia. Não andavámos de mãos dadas, não dizíamos que nos amávamos, mas era impreciso porque havia um pacto secreto quando nos olhávamos. 

Nunca fui bom em contar ou viver casos, romances, não acreditava nessa lorota que fala Neruda sobre amor e encantamento, sobre os olhos do outro serem os portais para uma existência mais suportável. Só que Luis trouxe um fato novo à minha vida, ele me fez acreditar que eu poderia ser melhor, ser um pouco menos... infeliz.

Abençoados os que não experimentam essa falsa perspectiva de feliz comunhão entre dois espíritos, não sabem o gosto amargo que o fim deixa nos lábios. Não digo apenas que ele levou grande parte da minha vontade de viver, ele arrancou a minha esperança de ser ... diferente.

Não vejo as ruas passando, continuo seguindo. Luis me dizia com seu jeito meio sem jeito "o segredo é continuar caminhando, Fabio, seguir em frente mesmo com todas pedras e desvios". Ele não era astuto, inteligente, não havia nada genial no que dizia, mas tinha uma pureza nas palavras e uma vontade de me fazer sorrir que no fim lembrar disso me despedaça.

O amor é uma espécie de sombra que projetamos para nos salvar do que realmente somos. A necessidade de apoiar a mão em outra para não cairmos em abismos. Abençoados os que caíram, os que continuam caindo em abismos solitários, que não foram cegados por essa névoa densa que é o tal relacionamento amoroso. Quando ele acaba é como bater a cara num alto muro de pedras ao fim de uma longa estrada florida. Você não recupera da pancada, segue sentindo o latejar do baque mesmo que tente amar outras pessoas.

Luis não me atende quando chego em casa e fico pensando que talvez a moça que ele arranjou esteja com ele, juntos bebendo vinho, ele está fazendo ela sorrir com suas palavras despretensiosas sobre a vida, sobre o mundo e a ridicularidade das pessoas. Eu fico imaginando que Bianca, sua atual namorada, é uma mulher muito especial. Por um momento estranho me pego pensando que queria tê-la para mim também, assim teria parte da vida de Luis de novo. 

Afasto esse pensamento com mais uma dose de whisky, mais um pico na veia, deixo meu corpo cair no sofá da sala, meio inerte, meio acabado e fico imaginando que em algum outro mundo eu ainda esteja preso com Luis e estamos rindo e rindo eternamente. Acho que a memória é isso, é nosso verdadeiro abismo onde a dor e o prazer se misturam, tornando-se a mesma coisa, tornando-nos amaldiçoadamente vítimas de nós mesmos, de nossas prórpias ilusões e fracassos, de nossas próprias imagens tão bem construídas. Daria tudo para apagar minha memória ao mesmo tempo que me agarro a isso como um último gole de vida.
Larissa Prado
Enviado por Larissa Prado em 30/11/2016
Alterado em 01/12/2016
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