O absurdo
por Larissa Prado
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Na calada da noite

Ele sempre caminha com a capa de chuva amarela mesmo que faça sol. É uma mistura de todos personagens da cultura pop: Travis Bickle, Alex DeLarge, Norman Bates, Jack Torrance, Patrick Bateman, está se esforçando ao máximo para ser alguém, para fazer algo, deixar sua marca em uma sociedade que enxerga tudo preto e branco.

Seu nome é Denver, como a cidade no Canada, sua mãe foi uma prostituta renomada. Deixou sua marca em cada beco fétido e cama. Ela veio ao mundo sem grandes feitos. Seu único filho nunca a perdoou por isso como não se perdoa por ter saído dela. Denver caminha com sua capa de chuva amarela regurgitando todos chavões das últimas estorietas pulp que consumiu. Ele tem se esforçado demais em não parecer real, em ser apenas um personagem, um estereótipo marginalizado. Vem tentando se resumir a nada, ao pó dos cigarros de segunda que traga mesmo com seu problema asmático. Sentado no balcão de um bar pede um copo de café cheio, sabe que é requentado e toma assim mesmo. Sempre está se submetendo a coisas ruins, gostos amargos e situações destrutivas.

A vida de Denver é um emaranhado de becos sem saída. Ele está com a ideia fixa de encontrar seu pai, conhece-lo, talvez seja alguém melhor do que a mãe fora e dê a ele alguma justificativa para que seus olhos sejam descaídos e tão pretos, como se sempre estivesse pronto para chorar. Não desperta medo em ninguém ou interesse, é uma figura solitária apagada e mesmo que se esforce em sua rebeldia infundada, Denver não consegue impactar. Gatos de rua mancos não conseguem despertar sequer a piedade de quem passa, não despertam nada além de indiferença.

Ele vira o copo de café e fita o dia ensolarado, sempre espera que alguém indague sobre o uso da capa de chuva em um dia de Sol. Ninguém nunca lhe questiona nada. Ele nota que do outro lado da rua uma viatura de polícia está encostada. É a mesma viatura que viu na semana anterior, aquilo intriga Denver que sempre está em busca de um mistério escondido em cada esquina e situação corriqueira. A vida real é muito monótona para sua necessidade de fantasia. Ele começa a pensar que está sendo seguido, de fato, está?

Terminado seu café, Denver sai com as mãos nos bolsos das calças por baixo da capa de chuva. Caminha e acelera os passos conforme muda de uma calçada para outra, a viatura está dirigindo em baixa velocidade, observando-o. Sente uma ansiedade crescer em seu coração disparado até que inicia uma corrida ensandecida de volta para casa. O carro não altera sua velocidade e por um momento, triste, ele se pega pensando que haverá outra viatura logo à frente e vai estar encurralado. Um sorriso brota em seu rosto: encurralado. A emoção da ideia faz suas têmporas latejarem e quando entra pela porta de casa, esbaforido e suado, a mãe tira os olhos da TV, segurando um cigarro entre os dedos, fatigada.

- O que foi? Parece até que tá fugindo da polícia...- volta a atenção ao programa de auditório em que uma dona-de-casa lamenta sobre ter um filho travesti.

- Foi isso mesmo. Se eles baterem aqui você fala que nunca me viu! – e corre para o quarto, batendo a porta em seguida.

Denver recupera o fôlego problemático, sente a ameaça do ataque de asma, mas logo afasta-a com um gole da cerveja choca sobre a cabeceira da cama. Ele olha pelo vidro embaçado da janela, a viatura lá embaixo passa com calma, lenta e preguiçosa girando a sirena uma vez.
- Filhos da puta, vocês nunca vão conseguir me pegar. – ele comemora com um murro na janela.

Denver se joga na cama, sentindo ainda os músculos das pernas doerem bastante. Está fitando o teto do quarto, uma infiltração se expande ali como a boca de um Godzilla. Ele aguarda a chegada da noite assim, parado, fora de si, como se o mundo real não fosse mais palpável e o fio que o sustenta conectado a ele estivesse desfiando noite após noite.

Depois de uma longa soneca, Denver sai da cama e apenas joga água no rosto. Passa pela sala onde a mãe continua assistindo TV, dessa vez um homem de terno fala sobre as atrocidades do dia. Ela não levanta os olhos para o filho, está concentrada em acabar com o resto de um pote de sorvete, seu quadril mal cabe na poltrona. A capa amarela de chuva passa pela sala como um raio. Ele coloca no bolso da calça um canivete que diz para si mesmo foi a única herança deixada pelo pai imaginário dos seus sonhos infantis.

Na calada da noite as ruas parecem labirintos indistintos, sombras que se sobrepõe silenciosas. Nada parece confiável, como de fato nunca é. Ele ama a noite, pode ser ele mesmo quando sai sem o Sol brilhando. Atravessa longas distâncias até o outro lado da cidade, após andar no metrô e apreciar seu sacolejar. Lá, do outro lado, na área mais nobre ele volta a passear entre os cassinos, casas de jogos, todas luzes de neon refletindo em seus olhos de peixe-morto. Denver fica fascinado nas casas de strip-tease, porque aquelas mulheres sempre lhe parecem de outro mundo, irreais assim como ele vem tentando ser. Ele joga os poucos trocados que consegue roubando aqui e ali no palco, tudo para ver bundas redondas deslizando por canos metálicos. Bundas redondas que o amam.
Enquanto sai de uma dessas casas noturnas, mexe no canivete dentro do bolso.

- Hoje parece ser a noite certa... – ele diz pra si mesmo. Os pés arrastam pelas avenidas, quando ele nota que está sendo observado pela mesma viatura que o perseguiu à luz do dia.

Não consegue ver quem está por trás dos vidros escuros, mesmo quando tenta fazê-lo encarando o vidro da frente. É como se o carro não fosse comandado por ninguém. Ele pensa que talvez seja o pai tentando aproximar-se dele, Denver tem a certeza que seu pai é um policial. É a verdade que criou para acreditar. Resolve aproximar da viatura, munido de toda coragem e petulância que consegue arranjar.

- Ei caras... – ele acena, mas o vidro não abaixa. – Ei caras. – chega perto e bate no vidro do motorista. – Por que vocês não dão o fora? Hã? Não estou fazendo nada de errado, há? – e continua batendo no vidro.

O carro arranca em alta velocidade e desaparece na movimentação das avenidas iluminadas pela noite agitada. Denver fica parado respirando a fumaça do escapamento da viatura. Frustrado e transtornado. Ele volta arrastando os pés para o subúrbio, para seu pedaço de chão miserável.

- Minha mãe só sabe comer e crescer naquela maldita poltrona... – começa os mesmos pensamentos desconexos de ódio pela mãe – um dia vai acabar explodindo mesmo, banha voando pela sala e grudando no teto. – ele passa numa loja de conveniência para comprar cigarros e água sanitária caso a mãe exploda aquela noite precisará limpar o teto.

Sai com a sacola balançando em uma das mãos, a capa de chuva amarela é a única coisa que se destaca nas vielas sem iluminação. – Tenho 30 anos e nunca dei uma fodida na vida. Nunca. Nada. Só vejo aquelas bundas redondas me convidado para uma trepada, mas nunca consigo. Parece até que essa porra que tenho entre as pernas não consegue trabalhar... – ele continua falando consigo mesmo – Que diabos é isso tudo? Se pelo menos encontrasse meu pai, se ele me arranjasse um trabalho de verdade, algo para fazer e uma mulher para casar e amar e respeitar que não cresça numa poltrona e se entupa de doces e programas ruins. – ele sente uma umidade e são suas próprias lágrimas. A capa de chuva o protege da sua própria tempestade espiritual.

- Eu amei uma mulher, Natasha, no colégio, quando ainda tentava aprender alguma coisa. Ela nunca soube que eu existia e namorava o Pablo. Por um tempo eu me chamei Pablo só para poder sentir como é estar no lugar dele... Eu fico pensando por onde Natasha anda, será que casou? Teve filhos? Ela era muito bonita... – prossegue em seu monólogo sussurrado porque Denver não tem amigos e fala consigo mesmo o tempo todo. Quem o conhece de vista, ou mesmo as pessoas que convivem com ele no dia-a-dia, o homem do cafezinho, acham que ele é louco e pensam “Pobre homem...”

A viatura reaparece numa esquina e passa a seguir Denver em baixa velocidade, ele está muito submerso nos próprios pensamentos para notar. Está pensando na mãe explodida, em Natasha do colégio e nos tempos que achava que seria um policial ou detetive como nos filmes antigos que via noite após noite. Seria um boa pinta, cabelos aparados e mente sagaz, Natasha iria ser a mocinha do filme e precisar sempre dele. Ela nunca sequer soube que ele existia, claro. Denver passa os olhos pela rua e quando vai atravessar o carro de polícia aumenta a velocidade acertando-o em cheio nas pernas. Ele rodopia, a sacola voa e água sanitária bate no chão explodindo o líquido corrosivo. Denver voa através do carro e cai de cabeça no asfalto. Enquanto voava pensava que estava tendo um dos seus momentos de delírio que conseguia simplesmente sair do corpo material e ir longe em lembranças que nunca tinham acontecido, seu espírito voava por existências onde ele era Pablo, tinha um pai delegado e uma mãe carinhosa que o acordava para ir à escola. Mas assim que encontrou o chão, Denver começou a rir e engasgar com as golfadas do próprio sangue, a água sanitária agora se misturava ao líquido vermelho no asfalto. A capa amarela manchada de escarlate eram as únicas cores da noite.

O carro de polícia ficou ali parado, os vidros fumês ainda suspensos, nunca abaixaram. Apenas os faróis traseiros acenderam anunciando o movimento de ré. Voltou a passar por cima de Denver, a pressão na cintura fez suas entranhas saltarem. Ele tentou gritar, mas a garganta estava cheia com o bolo de sangue que subia. Um ataque de asma definitivo, não podia respirar e nunca teve a bombinha receitada pelo médio, a mãe nunca o levara ao médico. Ele pensa com tristeza que seria essa a noite que iria dar um fim à mãe, que iria acabar com tudo aquilo. Era a noite certa, mas a viatura de polícia, esse maldito carro que continuava passando por cima dele com insistência...

Denver abre os olhos para um céu ensolarado. Muitos rostos estranhos o fitam com piedade. É a primeira vez que sente-se notado pelas pessoas, mesmo com aqueles rostos flutuantes cheios de pena, sente-se parte da dança. Uma voz feminina comenta

- Como ele pode continuar vivo? Como alguém continuaria assim? –

Denver não consegue mexer nenhuma parte do corpo, não existe mais corpo. De um ângulo distante nós podemos ver que seu corpo está separado através da explosão das entranhas, mas ele ainda consegue abrir os olhos de peixe morto e sentir o sol queimando sua pele rígida e fria. Consegue abrir os olhos porque sente-se voando novamente em uma existência irreal. Ele vinha se esforçando muito em não ser real, se empenhando em se tornar apenas um personagem de um enredo que ele mesmo criou para si.

O sol está muito quente e Denver aceita fechar os olhos só porque a quantidade de rostos aumenta e aumenta. Sente-se constrangido em morrer assim, aos olhos do mundo. Sente falta do teto do quarto, da sua cama que fedia e rangia dia após dia e noite após noite. Queria ter morrido na calada da noite, sozinho, esse era o enredo que iria ter criado para si mesmo, mas a incidência dos raios de sol e toda balbúrdia em volta só reforçavam o que Denver sempre estava tentando ignorar, ele não era dono da própria história, seu desfecho – bem como seu início – jamais seriam como ele desejaria. Pelo menos não nessa existência material de becos sem saída e rostos frios desconhecidos.
Larissa Prado
Enviado por Larissa Prado em 29/11/2016
Alterado em 29/11/2016
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