O absurdo
por Larissa Prado
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As lágrimas de Jane
 
"A quem tem o coração morto, os olhos nunca choram"
(Os Miseráveis - Victor Hugo)
 
Daquela distância as lágrimas de Jane ainda conseguiam me afogar. Sentia como se eu mesmo estivesse desaguando. Permanecia na minha zona de conforto e segurança apenas observando seu choro copioso. Ela possuía escaras grotescas nas mãos infligidas por si mesma. Acho que Jane não parou de chorar desde o dia que nasceu. Há muitas pessoas como ela, mas nós nunca prestamos atenção.
 
*

Ela força a cadeira de rodas para frente e quase cai no declive do meio-fio, Jane tem lindos cabelos castanhos opacos. Quando mais nova deveriam reluzir, agora não possuem vida, mas continuam bonitos. Não sei precisar sua idade, ela é uma moça ainda mesmo com tanto sofrimento nos olhos. Manobra sua cadeira com habilidade para lá e para cá, pedindo trocados no semáforo. Fico daqui observando Jane e suas lágrimas que nunca param.

Certa vez, munido de coragem, perguntei o motivo dela não parar de lacrimejar um instante sequer? Jane foi categórica, em sua voz rouca disse que tinha algum tipo de problema que faziam seus olhos desaguarem o tempo inteiro. Limitei-me a esse diálogo curto, apesar de me compadecer de sua miséria não me sentia bem tão próximo. A pobreza alheia parece impregnar em nossa pele, tememos um dia nos tornarmos iguais.

Aqui da minha banca de revistas noto o dia-a-dia dessa inválida chorosa, é de partir o coração, mas não posso fazer nada. Sei que todos temos nossas chagas para lamber e nossas cruzes para carregar, mas Jane parece não conseguir lidar muito bem com sua própria existência lamentável. Em alguns dias, ela pragueja, perde a paciência, e continua chorando e chorando.

Não lembro muito bem o dia que ela deixou de vir. Foi após um longo feriado, percebi que a cadeirante não estava por ali, esmolando. Fiquei um pouco incomodado, ela era meu passatempo diário, o tipo de espetáculo que apreciamos por fazer com que nosso subconsciente registre a valiosa informação "Nunca serei como ela. Estou a salvo nas nuvens de Deus. Nunca serei como Jane e seus olhos que não páram de desaguar". 

Passaram semanas, Jane nunca mais retornou. Chegaram outros tipos de pedintes, mas nenhum com a peculiaridade dela, nenhum derramava lágrimas o tempo inteiro. Perguntei à minha vizinha, dona do lanche que me servia um café saboroso, se ela sabia sobre Jane. A mulher só sabia que ela tinha morrido, sem me dizer ao certo do que. Também não soube avaliar como ela poderia ter obtido tal informação, Jane não parecia ter família, parecia mais um desses cães vadios e magricelas soltos na beira da estrada. Sem destino ou origem. 

Os anos passaram, fechei a banca, aposentei e ainda lembro-me das lágrimas de Jane. Todas as ocasiões em que chorei, lembrava-me dela, era como se suas lágrimas brotassem dos olhos de todos indivíduos da humanidade. Ela não parava de chorar um segundo sequer. À noite, deitado sozinho, sem meus entes queridos, o único espécime de uma vasta família, me pego pensando em Jane deitada em sua cova de indigente, apenas a ossada, e posso visualizar as cavidades ocas do crânico derramando lágrimas salgadas porque Jane nunca parou de chorar. Nunca. 
Larissa Prado
Enviado por Larissa Prado em 24/11/2016
Alterado em 24/11/2016
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