O absurdo
por Larissa Prado
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Do Além
 
"Será possível que nosso planeta tenha de fato engredado tais criaturas? Que olhos humanos possam mesmo ter visto, na substância da carne, o que até então o homem só havia conhecido em devaneios febris e lendas fantasiosas? E no entanto eu os vi em fileiras intermináveis – debatendo-se, saltando, coaxando, balindo – uma bestilialidade crescente sob o brilho espectral do luar, na sarabanda grotesca e maligna de um pesadelo aterrador."
(H.P. Lovecraft - A Sombra sobre Innsmouth)
 
Os fatos que decidi registrar nesse pequeno gravador de mão aconteceram quando eu ainda era muito jovem na arte da comunicação com os mortos. A habilidade mediúnica não é uma dádiva, muito menos uma maldição. No início, considerava um fardo ver as coisas que via em sonhos, escutar o que escutava quando estava sozinho ou entre pessoas, tudo me fazia crer estar enlouquecendo. À medida que procurei estudar essa habilidade incomum passei acreditar que poderia realmente ajudar pessoas, trazer conforto a elas quando o laço delicado entre as várias dimensões cedesse.

Não trouxe conforto e não enlouqueci com minha peculiar capacidade de comunicar com os mortos, tudo continuou como sempre foi. Era visto pela maioria como um charlatão - até certo ponto eu mesmo acreditava nisso -, mas para os desesperados eu me apresentava como o último recurso. Apesar de ter construído uma sólida carreira como médium e escrito vários livros sobre o assunto, minha própria mente questionava muito do que sentia. Sempre fui um homem cético, apegado a explicações científicas e racionais. A maior parte dos casos que resolvi ajudar era compreendida por justificativas lógicas. Uma parcela muito pequena podia ser atribuída a fatos sobrenaturais. Essa parcela pequena foi a que fez toda diferença em minha vida.

Há exatos três anos recebi uma chamada no meio da madrugada. Era uma mulher em evidente desespero, chorava de soluçar. Situação corriqueira em minha carreira. Tentei acalmar a mulher mesmo submerso na sonolência, demorei cerca de meia hora até fazê-la parar de chorar e se explicar. Darei um codinome para ela, evitando revelar sua verdadeira identidade, Vitoria me relatou que não aguentava mais viver em sua própria casa e uma loucura se instalara na mente do marido e na dela. Como de costume fiz meu questionário sobre possível presença sobrenatural na casa, ela me deu as respostas esperadas. Pedi para que Vitoria esperasse o dia amanhecer e, então, iria fazer a visita, ela começou com o choro desesperado de novo, dizia não conseguir sair de casa para fugir que forças malignas estavam fazendo sua família ficar ali e ser deteriorada. 

Não posso negar que fiquei aborrecido pela insistência da mulher, mas logo que desliguei prometendo ir vê-la de imediato, respirei fundo e compreendi a sua angústia. É desorientador trabalhar com as armadilhas que a mente e o medo pregam na maioria das pessoas que alegam estarem sobre influência de forças do mal. Troquei de roupa e fui até casa de Vitoria, ficava longe, do outro lado da cidade em uma região antiga. A história do condado revelava que ali naquele bairro estavam localizadas as primeiras construções erguidas por uma nobreza extinta há séculos. 

Ao estacionar na entrada da casa notei que se tratava de um local realmente antigo. A arquitetura não tinha sido reformada como da maioria das outras casas da rua, conservava sua estrutura original. Notei que o ar estava estagnado ao redor da casa e uma sensação forte fez meu estômago girar. Era como estar entrando em uma festa sem ser convidado, podia sentir que algo não me queria ali e me perguntei até que ponto a ligação desesperada de Vitoria não sugeriu à minha mente esse estado de alerta e incômodo? Precisava tomar cuidado com minha cabeça, apesar da mediunidade, não podia confundir manifestações espirituais com meus recentes desequilíbrios mentais. A verdade é que tinha começado a beber de novo, o álcool alterava minha percepção embora me fizesse calar as várias vozes que coexistiam em minha mente. 

Na varanda de entrada pude perceber que as janelas estavam todas lacradas do lado de dentro, barradas por tábuas de madeira. O carro da família estava largado com portas escancaradas na entrada da garagem e os enfeites que deveriam balançar e tilintar com a brisa estavam imóveis. Tudo ali me fazia arrepiar. Bati na porta com insistência, não ouvi qualquer ruído vir de dentro, as luzes estavam todas apagadas. A madrugada era puro breu.

Depois de insistir bastante na porta da frente, desisti. Andei ao redor da casa, entrando por um portão lateral. Ao passar pelo canil vi um cão de porte médio, vira-lata, dormindo em sono profundo. Parecia dopado ou desmaiado. Bati na porta dos fundos, ela tinha a fechadura arrombada e estava bamba. "- Vitoria? Sou eu, o médium que você chamou!-" falei alto, quase em gritos. Escutei uma movimentação atrapalhada se aproximar da porta, Vitoria abriu e seu aspecto era aterrorizante.

Ela parecia um cadáver, olheiras circundavam seus olhos fundos, o nariz estava inchado e os lábios cortados. Cabelos desgrenhados para todos os lados, era uma mulher desgastada e, visivelmente, exausta, sua magreza e palidez assustavam como se fosse a própria aparição que assombrasse a casa. - Vitória, me diga, o que de fato aconteceu aqui?- ela olhou para os lados, conferindo o quintal e me agarrou pelo braço. Mesmo lidando com famílias em estado de desespero, nunca vi uma mulher tão atormentada, seus olhos eram dois poços de loucura e pânico. Ela sussurrou, - São eles, eu posso vê-los agora correndo lá fora, conseguiram arrebentar a porta da cozinha e entraram. Dominaram a mente do meu marido, precisei amarrá-lo na cama e sedá-lo, mas ele não dorme...- se eu não tivesse tocado seu ombro Vitoria não teria parado de falar.

Tentei acalmar da melhor maneira enquanto ela me levava por uma extensa escada em direção ao quarto do casal. Conforme caminhava eu notava cada detalhe na casa. Não tinha nenhum espelho, a sala estava um caos, comidas estragavam em pratos e o odor delas era nauseabundo. Ao aproximar da porta do quarto escutei um rugido animalesco, deduzi que fosse o marido. 

Entramos, Renan - que também é um nome fictício - estava sobre a cama, pés e punhos presos com nós cegos de cordas grossas. A aparência dele era pior ainda do que da esposa. Haviam feridas cobrindo todo seu rosto e queimaduras consumindo sua carne viva no peito despido. Trajava apenas uma bermuda imunda por dejetos. O odor no quarto piorou quando me aproximei dele. - Senhor Renan... eu vim ajudá-los. - ele virou o rosto para a janela coberta de tábuas, notei que no quarto não existiam espelhos também, a claridade não entrava ali. - Ninguém pode me ajudar - ele murmurou desolado, meu coração se compadeceu daquele casal. - Vocês possuem filhos, Vitoria? - ela balançava cobrindo os ouvidos e gemendo - Não sei, não sei.- Coloquei-a sentada numa poltrona ao lado da cama e fui percorrer o andar de cima. 

De fato, tinha um quarto de criança no fim do corredor. Vários desenhos cobriam as paredes, e pelas fotos viradas nos porta-retratos era uma bela garotinha de olhos alegres. Não achei ela dentro da casa, voltei então ao quarto. Vitoria olhava para o marido, ainda em desespero, abraçada aos joelhos, ela não parava de gemer como se algo doesse. Renan tinha os olhos inchados fechados. - Essas feridas - observei o corpo dele - foi ele quem as fez, Vitoria?- ela parecia tão perturbada que qualquer informação seria duvidosa - Sim, sim, algumas apareceram espontaneamente... essas queimaduras, só aumentam. O rosto ele feriu por si próprio, Renan...não é mais ele, entende? É um monstro! - voltou a cobrir os ouvidos - Faça-os parar! Pelo amor de Deus! - ela urrou em dor e pranto, escorregando pela poltrona.

O que mais estranhei em todo contexto foi a aparente paz que minha percepção sentia no interior da casa. O lado de fora estava com aquela típica atuação do mal querendo me ver longe, mas ali dentro, tudo parecia normal. Resolvi vasculhar a casa novamente, dessa vez de olhos fechados, orando mentalmente, clamando para que pudesse entender aquilo. A ausência da garota era o fato que mais me preocupava. Se marido e esposa tinham enlouquecido poderiam ter feito algo contra a filha.

Estava subindo as escadas do porão pela segunda vez quando a porta fechou em meu rosto. Desnorteado na escuridão do lugar eu caí de costas, senti uma fisgada na coluna ao bater contra o chão. Fiquei ali deitado, o ar circulando com dificuldade. Ao virar o rosto para me levantar notei a silhueta de uma criança debaixo da escada. - Oi... - disse baixo. A menina saiu, parecia desconfiada. Sua camisola estava coberta de sangue. Assustado, me adiantei e esqueci a tremenda dor na lombar. - Querida, o que houve com você? - segurei seus ombros, a iluminação ali era nula. Eles pareciam ter desligado todas as luzes e o gerador. - Vamos lá pra cima - no momento que disse isso pude sentir uma respiração forte em minha nuca. 

Estava habituado em lidar com manifestações espectrais, mas o que havia naquela casa não condizia com nada que tivesse experimentado ou estudado. Ao me virar, pronto para encarar o espírito obsessor, o que vi me fez perder a fala. Uma criatura de olhos faiscantes e corpo tridimensional, espichado, de olhos negros miúdos virava a cabeça arredondada de um lado a outro, me analisando com curiosidade. Não sabia dizer o que era aquilo, mas a escuridão que envolvia o seu corpo denunciava sua malignidade. Sempre fui destemido, poucas vezes senti medo na vida. Já havia lidado com todo tipo de coisa, mas aquilo? 

Estendi a mão para segurar a garotinha, fugir daquela criatura, mas ao me virar para ela tinha desaparecido. Corri em direção à escada do porão, passando ao lado da criatura. Pude sentir sua mão em forma de garra tentar me puxar pelos cabelos, mas fui rápido e subi aos tropeços. Forcei a porta, ela não abria. Evitei olhar para trás ao ouvir o ranger dos degraus, lento e mortífero.

Investi contra a porta, meu ombro fraturou em vários lugares com a força que exerci até conseguir arrombá-la e trancar lá dentro aquela estranha aparição. Gritei por Vitoria, subindo as escadas, minhas pernas fraquejaram em cada degrau. Quase tombei, pude até mesmo sentir a dor do impacto do meu rosto contra o chão, mas consegui correr até o andar superior. Lá, a sensação de sonho me tomou, me envolveu, levando minha mente para longe, um não-lugar em meio a uma dimensão desconhecida.

A mansão não era mais uma mansão, um enorme campo obscuro sem fim aparente deflagrava-se diante meus olhos, um labirinto sem paredes onde me sentia sufocado. Um pássaro grande preso em uma gaiola minúscula devia se sentir como eu. Apesar de ter passado anos e anos, metade da minha vida, dedicando-me ao estudo do sobrenatural e compreendendo até certo ponto tudo sobre esse universo, a experiência que tive fugia de qualquer tipo de explicação. Tentei chamar por Vitória e seu esposo inúmeras vezes, mas aquilo começou a parecer uma bobagem, esforço em vão. Passei a duvidar da existência daquela família, daquela mansão e de toda situação na qual havia me colocado. Passei a questionar minha sanidade como nunca antes.

Fiquei imóvel, não iria me locomover por aquela escuridão labiríntica, até porque minha respiração estava indo de mal a pior, se me esforçasse em andar ou correr, teria uma parada respiratória. Eram estranhas as ideias que me assaltavam justo naquele momento, algo sobre processos respiratórios, a complexa máquina de funcionamento humano. Tantas coisas sem nexo, e meu pânico tomando proporções inimagináveis. Olhei em volta, minha cabeça pesava, sentia que a esperança abandonava minha mente, meu corpo tremia até me fazer cair de joelhos em um chão inconsistente. A primeira coisa que pensamos é “estou morrendo”, depois clamamos para que seja realmente nossa morte, a dor é tanta que é a ideia de deixar de respirar passa a ser um consolo. A dor vinha do centro da minha cabeça e causava total paralisia.

Senti meus olhos lacrimejando, podia jurar que eles estavam bem abertos quase arregalados quando vi a figura da garotinha sair da penumbra daquele lugar sem formas acompanhada da figura diabólica e espichada que encontrei no porão. Ela vinha com um rosto pálido e assustado, mas de alguma forma era um semblante plácido, diria conformado. Tocou-me a fronte, onde a dor estava acentuada e pediu para que eu acordasse “Aqui não é seu lugar” a voz da garotinha dizia, daquela proximidade notei que não era ela quem guiava o ser, e sim o contrário. A voz que ela emitia na verdade era a dele, pois o buraco onde deveriam ser lábios se moviam, a garotinha não passava de um instrumento de transmissão de códigos.

“Você não deveria ter atravessado o véu”, dizia a garotinha com a estranha e diminuta voz da criatura. Não senti mais medo ou dor, uma sensação de completo vazio tomou conta de tudo, como se um buraco negro engolisse cada partícula de vida que havia em meu corpo. Dentro das minhas limitações como médium e ser humano indaguei “Estou perdendo minha alma? É isso? Qual é seu nome, entidade?” não vieram respostas, em um piscar tudo havia desaparecido tanto a garotinha quanto seu guia. Eu estava jogado no chão do andar superior da mansão. Meu corpo queimava, vergões podiam ser vistos pelos braços e mais tarde iria notar que meu rosto estava tão vermelho como se despejassem água fervente. Meu quadro era tão parecido, ou o mesmo, que o esposo de Vitória apresentava. Aquilo fugia da minha compreensão, como conversei com Vitória e seu marido depois que as coisas acalmaram. Minha presença ali não foi de todo inválida. O casal se mostrou menos frustrado e aflito, conseguiram dominar a si mesmos de novo e traçaram um plano de se mudarem dali. A filha do casal, vim saber depois, havia falecido há duas semanas e a mãe culpava sua perda pela desordem mental do marido, e consequentemente, a dela própria.

Eles não quiseram entrar em detalhes sobre a morte da filha, Giovanna havia entrado em coma e nunca mais retornado, foi tudo o que puderam me adiantar. Quando o dia amanheceu, depois de toda experiência aterrorizante que presenciei, deixei o casal empacotando suas coisas e cheios de agradecimentos por algo que eu não tinha feito, e voltei para casa. Minhas pernas ainda tremiam, até hoje passados tantos anos ainda sinto minhas mãos trêmulas.

Algo despedaçou meu equilíbrio, sei que o que presenciei não teve nada a ver com todas teorias que já estudei sobre manifestações demoníacas. Era algo além de qualquer compreensão humana, algo que nossa raça ainda não está preparada para enfrentar. O buraco negro só cresceu em meu peito, tomando conta de todos aspectos da minha vida, me impossibilitando em continuar trabalhando, vivo de aposentadoria por invalidez, diagnosticado como “mentalmente perturbado”. O fato é que depois da experiência que tive na casa de Vitoria todas minhas perspectivas de vida se resumem ao nada, ao vazio deixado por aquela estranha criatura espichada, tento desenhar suas formas, blocos e blocos de papel com aquela aparição ocupam minha mesa, nunca consegui chegar próximo do que vi.

Perdi a habilidade mediúnica, o que restou se limita a ruídos desconexos, como mil televisores dessincronizados dentro da minha cabeça. O que presenciei está além de toda criação humana do paraíso e do inferno, há certas portas que não devem ser abertas, há muito que ainda não podemos suportar sobre o universo. Não estamos sozinhos, isso deveria nos confortar, mas é uma constatação assombrosa, nenhum deus irá nos salvar, nenhuma máquina ou arma. Estamos à mercê desse enorme buraco negro que um dia acabará engolindo tudo assim como acabou me deteriorando.
Larissa Prado
Enviado por Larissa Prado em 22/11/2016
Alterado em 26/04/2018
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