O absurdo
por Larissa Prado
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A máquina de sonhos

Meu número hoje se tornou 243, creio que é porque o 243 de ontem conseguiu se desligar, o que significa o mesmo que morrer de fato. Quando um número da sequência se desliga o anterior automaticamente toma seu lugar no grande esquema no qual estamos conectados. Estou um pouco aflito pelo 243 de ontem, dizem que é um número ruim na ordem. Não sei como será, acredito que já sinto a má influência da minha nova condição, pois eu não consigo mais sonhar...

O chicote estalou no ar, manuseado pela IA (inteligência artificial), um tipo de humanoide com olhos opacos e membranosos. Uma simulação humana medonha, aparentemente homem, mas interiormente máquina. Uma verdadeira aberração moldada em frieza e circuitos bem ordenados. O grito que veio depois da chicotada foi aterrorizante – Mexa-se, 243! Vamos, sonhe! – a pessoa acoplada à maquinaria tremia, sacodia, convulsionava incapaz de falar com todos aqueles tubos conectados em todos seus orifícios. – Mexa-se! Sonhe! – a pessoa não conseguia mais sonhar, tornara-se insone e descartável. A máquina de sonhos não podia tolerar um elo falho. A IA abaixou o chicote mecanicamente, seu rosto inexpressivo fitava o 243 de uma maneira cruel, como se por trás das placas de metal que revestiam sua face pudesse existir de fato uma essência humana. Ninguém sabia do que eram feitas as IAS que empunhavam os chicotes da punição, mas de fato eram aterrorizantes por estarem se tornando humanas demais.

A estrutura mecânica humanoide abaixou o chicote e se aproximou da face mórbida daquilo que um dia fora um homem, ele analisou com nojo e repúdio típicos sentimentos humanos que ele conseguia reproduzir fielmente – Tão vulnerável. Tão suscetível às mudanças do meio – desacoplou o 243 de sua maquinaria dolorosa. Ele soltou gemidos exaustos e dolorosos, caiu em posição fetal no chão envolto em um líquido grudento que não era suor e chorou. O seu carrasco apertou o rádio que trazia fixado na cintura e disse em uma voz monocórdia – Chame o pessoal da manutenção – o 243 escutou aquilo e se empertigou sentando-se no chão, nu e desorientado, cada parte deu seu corpo estava em dores dilacerantes pelos longos anos de tubos penetrados em todos lugares. A presença do pessoal da manutenção significava que ele seria descartado, e 243 duvidava muito que existisse algo pior do que isso. Ele ouvia histórias no tempo que era apenas o 242, e todas histórias eram assombrosas. Sem pensar direito no que fazia o homem levantou-se em pernas que pareciam de borracha e saiu correndo através da estrutura irreal do centro de pesquisas. Ele saiu correndo sem olhar para trás enquanto alarmes soavam de maneira ensurdecedora.

A voz rouca da IA que o mantinha em rédeas curtas gritava tão alto que parecia persegui-lo pelos tubos de ar das instalações. Seu corpo todo tremia e estava enfraquecido, mas ele continuou correndo à procura de uma saída. Não se lembrava como fora parar ali ou de sua vida antes daquilo, não se lembrava sequer do próprio nome de batismo, toda sua história de vida havia sido simplesmente sugada da memória. Ele não tinha memória, mas lembrar-se de como usar as pernas para correr era tudo o que precisava até ali. E ele corria, corria e corria. A segurança adentrou o lugar e 243 precisou se esconder e mudar sua rota de fuga por diversas vezes. Algumas vezes quase foi pego, mas por um milagre conseguiu evitar ser pego pelos seguranças que eram meio-homens e meio-máquinas, verdadeiros ciborgues armados até os dentes. 243 ficou parado um longo tempo, encolhido no vão entre duas portas de saída, sentindo o coração bater com muita força no peito, seu corpo todo tremia e se manter de pé era quase impossível. Ele sentia filetes grossos de sangue escorrendo dos ouvidos, a dor era tanta que se tornava dormente. Os longos anos de tubos introduzidos em seus ouvidos, roubando sua memória e reprogramando sua mente. Pequenas luzes bailavam através de seus olhos e ele precisava piscar com muita força para que elas diminuíssem. Sua memória era um espaço em branco, 243 precisava pensar por um longo tempo até colocar as pernas para se moverem, aquele gesto simples lhe custava muito. Todo seu sistema nervoso estava diferente, modificado e invertido.

Perdido em sua própria incapacidade motora, 243 andava em círculos, os alarmes soavam cada vez mais alto, e por pura sorte ele não foi pego e conseguiu sair para o mundo exterior. O sol a pino queimou seu rosto pálido e esverdeado do lado de fora. Ele ficou parado por um tempo fitando o céu sem se preocupar com a luz direta do sol em suas retinas modificadas e doloridas. A sensação do sol no corpo lhe causou arrepios convulsivos, mas era agradável sentir aquilo. Ele passou a caminhar aleatoriamente pelas calçadas sem reconhecer que cidade era aquela, haviam poucas pessoas nas ruas e mesmo elas não prestavam atenção no homem nu que tinha jorros sangue brotando de todos orifícios. As pessoas simplesmente ignoravam sua existência, passavam direto ou apenas desviavam desatentas. Ele observava tudo com olhas que não eram mais os seus. A mente em completo branco. Por um momento olhou para trás a estrutura imensa do centro de pesquisas despontavam na paisagem. Uma construção impecavelmente cinza e concreta. Lapsos de memória riscaram a mente de 243, gritos desesperados, seu corpo sendo perfurado, homens de jaleco e máscaras, máquinas fazendo seus chiados e sons de monitoramento. Os lapsos logo se perderam e vieram as lembranças vagas de sonhos.

À frente uma banca de revista quase o fez chocar o rosto contra sua parede, 243 contornou assustado e encarou o homem por trás da banca. O velho homem estava sentado e observava um jornal aberto sem exatamente ler. – Senhor... – o fugitivo murmurou, a garganta estava rasgada interiormente pelos longos anos de tubos alimentares acoplados ali. Ele sentiu o gosto de sangue explodir na boca e cuspiu ali mesmo um bolo disforme de alimento sintético, basicamente pílulas envoltas em uma gosma fétida. Ficou encarando aquilo por um tempo, tentando se lembrar, mas não haviam lembranças. O homem da banca encarou o fugitivo pela primeira vez, seus olhos eram vagos e fugidios, como olhos de pessoas sonâmbulas. – Sim? – ele perguntou ao 243. – Onde estou? – o fugitivo perguntou com imensa dificuldade em ordenar as palavras em frases completas. Afasia, toda sua capacidade comunicativa estava afetada, ele sabia o que eram as letras, mas não sabia mais o que significavam. Atordoamento. O homem da banca o fitou por um longo tempo silencioso. – Sonhando. Você está sonhando. – foi tudo o que o homem disse antes de voltar a se concentrar no jornal que segurava. 243 ficou ali parado, entorpecido, todos seus sentidos comprometidos. E havia o chiado por trás de tudo, como uma TV fora do ar. Sua mente era uma TV fora do ar e ele ficou parado tentando captar o sentido das palavras do homem da banca.

Ele não estava sonhando, sabia disso porque não conseguia mais sonhar, essa era a única informação concreta que estava armazenada em seu cérebro modificado. Mas aquelas pessoas, todas pessoas que compunham a cidade pareciam estar sonhando. 243 olhou novamente para trás, para a construção imponente do centro de pesquisas. Lembrou-se vagamente da máquina dos sonhos e da voz robótica de alguém lhe dizendo que era a uma das maiores invenções humanas desde a descoberta da eletricidade. Ele ficou parado catatônico observando a estrutura de concreto ao longe e lembrando-se com certa euforia da máquina de sonhos. “Ela pode captar tudo o que sonhar e tornar real. Podemos criar uma realidade alternativa ideal enquanto seu corpo material estará aqui projetando os sonhos. Doppelgängers estarão lá fora vivendo a vida que você quer viver. Uma vida diferente a cada dia. Pense no gigantismo...” e as lembranças se perderam na brancura enlouquecedora da mente. 243 virou o rosto e sentiu uma necessidade de chorar, uma tristeza recaiu em seus ombros e ficou cabisbaixo, a cabeça pesando uma tonelada, as lágrimas não vieram e ele permaneceu ofegante até vomitar mais um bolo de alimento sintético. Continuou caminhando sem rumo entre pessoas que não estavam ali realmente.

Computadores. Era tudo o que ele lembrava agora jogado na sarjeta de uma cidade que não tinha noite. O Sol a pino nunca ia embora. 243 ficou ali jogado, coberto apenas por alguns jornais que achara no lixo e fazendo um esforço doloroso para se lembrar. O simples ato de rememorar ele não conseguia mais, a agonia da mente era tanta que filetes de sangue escorriam por seu nariz a cada tentativa muito forte de lembrar. O cérebro parecia uma massa solta dentro da caixa craniana. “O que fizeram comigo?” ele repetia isso mentalmente, e tudo o que conseguia pensar era na palavra “Computadores”. Não sabia ao certo o que significava aquela palavra, o que eram “computadores”. Sem sonhos e sem sono, 243 não dormia. Ficava parado olhando para o tempo que não parecia passar com a presença do sol contínua e as pessoas passando sem olhar em volta, sonâmbulas.

Os dias se arrastavam lentos e ensolarados e nada acontecia. 243 permaneceu jogado no chão da sarjeta coberto por jornais que tentava ler e não conseguia. Sua memória às vezes dava alguns suspiros tímidos de vida, pois ele conseguia lembrar-se de uma mulher com largo sorriso e de uma criança em uma bicicleta, logo as imagens escapavam de sua mente sem qualquer significado. Nenhuma das poucas pessoas que lembrava lhe traziam algum tipo de reconhecimento.

Computadores, era isso que ficava rodando atrás de todas suas tentativas frustradas de rememorar. A palavra computadores e o contínuo chiado da TV fora do ar. Resignado, ele levantou-se e caminhou como um bêbado de volta para o centro de pesquisas. O peso em seus ombros era tanto que as costas arqueavam para frente, ele chegou até lá rastejando. A influência do lugar sobre si era tamanha que 243 entrou pela porta da frente como um verme rastejante, enfraquecido e entregue. Um ruído de máquina se instalou em seus ouvidos perfurados e sensíveis, era um ruído constante como o chiado de uma TV fora do ar. “O que vocês fizeram comigo?” ele levantou o olhar leitoso para a IA que tinha chegado para apanhá-lo. Diferente das outras IA essa lhe afagou a cabeça sem cabelos e parecia reproduzir um sorriso humano perfeito. – Nós vamos consertar você. – a voz feminina era reconfortante, 243 conseguiu sorrir de uma maneira débil antes de se entregar completamente.
Larissa Prado
Enviado por Larissa Prado em 20/05/2016
Alterado em 31/10/2016
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