O absurdo
por Larissa Prado
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A Estranha história de Emilie Sagée
 
*História  inspirada em fatos reais.

Era verão, se minha memória já muito gasta de hoje não me trai era o ano de 1846. Eu ainda era uma garota no frescor dos 13 anos, diferente da maioria das garotas da época, detestava as aulas de bordado e costura. Não gostava de me debruçar sobre aquele trabalho por horas e horas enquanto meus irmãos provavelmente se divertiam em casa. Sempre preferi estar entre garotos apesar de ser um comportamento condenável naquela época. Com a chegada da nova professora naquele ano o trabalho de me debruçar sobre a costura passou de uma atividade torturante para algo quase terapêutico. Emilie Sagée sabia como dar aula de uma forma que todas garotas se divertissem ao bordar, fazíamos toalhas de mesa e até mesmo detalhes em nossos próprios vestidos que a professora pedia para levarmos. Eu gostava de Emilie mas havia algo em sua figura que também me deixava desolada, era algum tipo de tristeza cansada, ela não era uma mulher feliz, isso era notável, e também algo por trás de seu sorriso amistoso era macabro.

Em uma das agradáveis tardes de costura, enquanto estava sentada ao lado de minha melhor amiga, Karine, mexendo as agulhas para terminar um belo caminho de mesa, eu notei que Emilie estava concentrada em seu livro de romance habitual, naquela tarde ela não falou muito e a aula começou a ficar enfadonha como era com a professora antiga. Comentei algo a respeito com Karine que concordou meneando a cabeça, não conversávamos enquanto costurávamos era uma das regras do colégio de meninas, mas eu não conseguia segurar a língua por muito tempo, sempre fui uma menina inquieta, talvez por isso, costurar era uma atividade exaustiva. Após furar meu dedo levemente, distraída no que fazia e deixando um bordado tortuoso e horrível no tecido, eu resolvi descansar um pouco. Coloquei o material sobre a mesa e repousei o queixo em minha mão, estava observando Emilie passar as páginas do livro e suspirar cansada entre uma leitura e outra, ela parecia cada dia mais fantasmagórica. Seu semblante estava tão pálido e encovado que achei que ela estivesse doente. Levantei a mão para perguntar a ela o que estava acontecendo, por pura curiosidade e também preocupação, mas antes mesmo de Emilie perceber que eu queria fazer uma pergunta algo chamou minha atenção para a janela, para o jardim que cercava o colégio. Lentamente recolhi minha mão erguida e senti uma onda de pavor escorrer por minha espinha e cobrir-me de assombro.

A professora Emilie Sagée estava sentada no banco de cimento do jardim, e ela tinha os olhos sagazes e cruéis quando me observou. Nos lábios finos um sorriso malicioso se expandiu e aquela figura pareceu-me sombria e maligna. Olhei rapidamente para Emilie que ainda lia o seu livro, e quando saltei da cadeira para soltar o grito preso, meus olhos voltaram novamente para o jardim, mas a figura já tinha desaparecido.
Já estou muito velha hoje, e alguns detalhes daquela tarde podem acabar me escapando, mas há algo que sempre está aqui muito vívido quando me forço a recordar o acontecido: os olhos da professora Emilie estavam opacos enquanto ela percorria as páginas do livro, era como se ela estivesse ausente do próprio corpo, como se tivesse sendo controlada remotamente. Não comentei nada sobre a figura da professora Emilie no jardim, quando fomos liberadas para irmos para casa me aproximei de Karine e contei em segredo o que havia acontecido, ela zombou de mim e me repreendeu por tentar assustá-la. O acontecido ficou na minha cabeça por dias e dias, me pegava olhando a janela da sala de costura toda tarde esperando a aparição novamente, mas ela nunca mais aconteceu.

Semanas depois, eu já havia me esquecido daquele delírio, eu estava sentada ao lado de Emilie enquanto ela me ensinava um tipo diferente de bordado quando levantei os olhos e instintivamente fitei a porta da sala. Havia algum tipo de presença ali, parada na porta eu pude ver Emilie parada me encarando com seu olhar maligno e sedento. Ela sorriu e mostrou dentes afiados, eu olhei para a professora ao meu lado que parecia extremamente exausta de maneira repentina e soltei um grito abafado cobrindo os lábios com o bordado que fazia. A professora Emilie havia desviado a agulha para si, e agora perfurava o próprio rosto em diversos lugares diferentes. O sangue começou a escorrer por seu queixo, bochechas e pescoço. O grito que eu havia soltado já não conseguia mais sair, saltei para longe dela e quando dei por mim estava próxima de mais da Emilie na porta. Minhas colegas de classe todas brincavam no jardim e nenhum ouviu meu pânico ali dentro, eram apenas eu e as duas Emilies e eu estava completamente apavorada. Gritei para a professora parar de se machucar, eu sentia cada parte do meu corpo tremer, ela não parava de maneira alguma e quanto mais ela se furava mais a figura fantasmagórica na porta sorria, seus lábios estavam quase se rasgando quando passei correndo por ela munida de uma coragem que nunca mais tive. Eu senti todo meu corpo congelar naquele momento que atravessei Emilie na porta, e cai estatelada na porta de entrada do colégio, em choque, meu coração parecia ter parado de bater e uma dormência invadiu todos meus membros, pernas e braços eu já não sentia.

Passados tantos anos, tanto tempo que já não me recordo do rosto da professora Emilie antes de desfigurar-se com sua própria agulha de bordado, eu ainda não consigo compreender o que aconteceu naquela sala. A história virou lenda, e o colégio fechou após o acontecido. Soube que a professora Emilie foi internada em uma clínica psiquiátrica e seu rosto nunca mais se curou das feridas que sangravam e não cicatrizavam, eu fui para cima de uma cadeira de rodas aos 13 anos, e hoje, aos 80 eu não consigo me lembrar como era a vida antes de Emilie Sagée, não da minha amável professora de costura, mas antes daquela aparição maligna. Ninguém me trouxe respostas, nem as religiões que me dediquei, nem os médicos que consultei, nem meu marido tão devoto, nem a ciência. Há mistérios na vida que permanecem ocultos sem que nenhuma resposta os explique, é assim com tantos acontecimentos que nunca vem à tona, é assim com a vida da maioria das pessoas acometidas por grandes males. O mal não tem explicação, ele apenas existe, ele apenas está acontecendo agora e sempre.
Larissa Prado
Enviado por Larissa Prado em 15/03/2016
Alterado em 02/11/2016
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